Clarice Lispector: um convite ao prazer da aprendizagem, por Anna Carolina Messias

“Sua alma incomensurável. Pois ela era o Mundo. E no entanto vivia o pouco. Isso constituía uma de suas fontes de humildade e forçada aceitação, e também a enfraquecia diante de qualquer possibilidade de agir”.
Clarice Lispector, Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres

 

 

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Desde que comecei a me interessar por Literatura e a estudá-la, tenho observado a relação das pessoas com duas Clarices Lispector: a que é altamente compartilhada pela Internet através das citações (algumas reais), cuja carapuça serve para a maioria das dores do espírito e a Clarice hermética e/ou encantadora.

Através dessa resenha, desejo levar a Lispector real e encantadora para dentro do seu coração, na eventualidade de você somente ter se encontrado com ela em romances mais insólitos, como A paixão segundo G.H. e Perto do coração selvagem. Para aqueles que nunca tiveram a oportunidade de ler Clarice, espero que este texto possa ser uma oportunidade para conhecerem um de seus melhores livros. No entanto, caso você já seja um admirador de Clarice e a conheça de outros carnavais, esta resenha fica como apreciação de um livro que é muito especial para mim.

Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres conta a história de Lóri, professora primária que mora sozinha em um pequeno apartamento em Ipanema. Ela tem muita dificuldade em se relacionar efetivamente com outras pessoas devido a seu grande senso de autopreservação e não menor nível de neurose. Além disso, a personagem possui uma série de questionamentos a respeito de si própria, o que a torna insegura e instável. Ulisses surge em sua vida para ensiná-la a se libertar e viver através do amor. Ele é professor de Filosofia em uma faculdade e também se encontra em um momento particular de autodescobrimento que, felizmente, não o impede de auxiliar Lóri em sua própria caminhada.

 

Acervo Estadão

 

A linguagem desse romance apresenta relativa trégua da “vertigem da linguagem” — expressão cunhada por Benjamin Moser, um dos maiores biógrafos de Clarice —, tão recorrente na obra de Clarice. Apesar disso, nota-se como a ortografia antevê o confuso estado emocional de Lóri: a história começa pela metade e com um verbo no gerúndio grafado em letra minúscula, precedido de vírgula, e termina sem acabar, com uma preposição seguida de dois pontos. Além disso, no plano da realidade, essa escolha da autora revela seu frequente posicionamento diante ao ato da escrita:

 

“Por que, realmente, como é que se escreve? que é que se diz? e como dizer? e como é que se começa? e que é que se faz com o papel em branco nos defrontando tranquilo? Sei que a resposta, por mais que intrigue, é única: escrevendo. Sou a pessoa que mais se surpreende de escrever”
(Lispector, 2010, 25).

 

O poeta e crítico Pedro Lyra assinala que a atitude do narrador de Clarice é “flagrar a verdade do ser humano como um produto do seu movimento vital” (Lyra, 1978, 115), ou seja, focar em uma personagem que deve atender uma premissa básica da sociedade: assegurar a continuidade da vida através da evolução histórico-geográfica. Ou seja, é papel de cada indivíduo que existiu/existe contribuir com sua parcela de responsabilidade na força que conduz sua geração para o progresso. Contudo, Lóri se mantém à margem dessa missão humana, sendo necessário aprender a tomar as rédeas de sua própria vida.

Se por um lado a personagem evita o sofrimento intrínseco ao estabelecimento de laços de afeto com as pessoas, não se permitindo tocar e influenciar por sentimentos como alegria, decepção, ciúme, entre outros, Lóri paga o preço de sua escolha através da dor pela razão de estar afastada da vida e das sensações. Profundamente sensível e indiferente por opção, ela foi introduzida ao mundo externo, mas somente o observa, sem de fato tocar ou ser tocada através do afeto, tendo em vista seus cinco amantes do passado. É Ulisses que, em um dos primeiros encontros com Lóri, lhe comunica a necessidade de fazer parte da vida e vivê-la, em um sentido autêntico que Lóri não conhece por não se conhecer.

 

“— Lóri, disse Ulisses, e de repente pareceu grave embora falasse tranquilo, Lóri: uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida”.

 

Um traço de personalidade que geralmente encontro nas personagens femininas da Clarice é o da aproximação da mulher com animais selvagem ou forças da natureza. Há duas passagens do livro nas quais a anarquia que caracteriza o estilo de vida de Lóri é simbolizada, respectivamente, por uma tempestade no céu e pela figura de um cavalo. Na primeira, Lóri escreve para Ulisses algo que não consegue verbalizar e ela se associa ao animal, julgando-se, dessa maneira, uma pessoa forte porque inocente.

 

“Existe um ser que mora dentro de mim como se fosse casa dele, e é. Trata-se de um cavalo preto e lustroso que (…) apesar de inteiramente selvagem tem por isso mesmo uma doçura primeira de quem não tem medo: come às vezes na minha mão”.

 

O receio de se sentir livre e viva pela primeira vez através da companhia de Ulisses frequentemente a coloca contra si mesma em um embate contra a curiosidade de viver e a conformidade de uma existência medíocre, o que suscita nela momentos de prolongamento com a natureza, que está sempre de acordo com suas emoções, e confere a ela um misticismo alcançável pelo ser humano, capaz dos maiores milagres, como um deus.

 

“Ela só percebe que agora alguma coisa vai mudar, que choverá ou cairá a noite. Mas não suporta a espera de uma passagem, e antes da chuva cair, o diamante dos olhos se liquefaz em duas lágrimas.
E enfim o céu se abranda”.

 

É interessante notar como os nomes de Lóri (Loreley) e Ulisses têm uma etimologia literária contrária da original. Loreley, segundo a lenda alemã, significa “sereia”, e Ulisses é seu par romântico na Ilíada e na Odisseia. Contudo, é Ulisses quem atrai Lóri, pois ela “reconhecia que ele tinha concentração, intensidade, delicadeza e discrição, embora tudo fosse quase sempre encapado por um tom leve para não mostrar emoção” (p. 54), e ela própria se reconhecia como obstáculo de si mesma, porém superável com a ajuda de Ulisses: “Sou um monte intransponível no meu próprio caminho. Mas às vezes por uma palavra tua ou por uma palavra lida, de repente tudo se esclarece” (p. 56).

 

 

Lóri, iniciante na vida, é quem viaja em busca da aprendizagem. Ulisses aguarda com paciência, assim como Penélope (personagem da obra grega), pelo retorno de Lóri. É necessário frisar que duas são as viagens de Lóri, uma abstrata, que compreende a sua aprendizagem do valor da vida, e outra concreta, que são as viagens reais que fez pela Europa, no passado. Em um dos diálogos com Ulisses, ela fala sobre uma experiência de abandono em Paris, na qual se encontrava sozinha à noite na rua, perdida e esquecida do nome de seu hotel. Seu desespero assume proporções gigantescas que, entretanto, em nada se assemelham com loucura, e sim lucidez da condição fragilizada do ser humano.

 

“Se não se lembrasse nunca mais do nome do hotel, ninguém a encontraria, ela ficaria morando naquele bairro sujo e negro e de edifícios enegrecidos, isolada do resto de Paris e teria que mudar de vida para sobreviver. Moraria ali mesmo onde se perdera: era raro uma pessoa tocar tão de perto a sua própria perdição”.

 

No último instante, quando já perdidas quase de todo as esperanças de recobrar o fio da memória, a salvação — um táxi — surge, e então o novo dilema é o de lembrar o nome do hotel, que afinal se resolve, mas somente após algum tempo rodando sem rumo pelas ruas de Paris. É dessa maneira, mas de forma abstrata, que se dará a caminhada de Lóri pela descoberta da vida “óbvia”, marcada pela liberdade dos sentimentos e emoções e pela ausência de máscaras que ocultam a essência individual humana. É através da desorientação e do abandono de certezas e seguranças que é possível salvar-se no instante derradeiro.

Uma das falas mais bonitas de Ulisses e de todo o livro em geral, é a que sucede o relato de Lóri sobre essa viagem. Ulisses faz algumas considerações a respeito do medo que Lóri teve da súbita liberdade de se encontrar desapegada de nomes, referências e passado, sentimento comum daqueles que não têm a coragem de abandonar convenções sociais. E então lista algumas das consequências de tal covardia, já enraizadas na vida da sociedade moderna.

“Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo (…). Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer ‘pelo menos não fui tolo’ e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos (…). E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia”.

Uma vez iniciada no processo de aprendizagem, Lóri deve aceitar a possibilidade de acabar não assimilando os ensinamentos das etapas: “O que é? Para aprender a alegria você precisa de todas as garantias?”. As etapas da caminhada de Lóri são delimitadas pelos capítulos do livro e pela nova perspectiva que a narrativa ganha aos poucos: menos embaraçada, sem se assemelhar a uma sobreposição de devaneios, para se tornar cada vez mais organizada até o fim do romance, acompanhando o progresso de Lóri e tendo por única intervenção o corte narrativo que sugere continuidade.

Divido em dois os momentos da aprendizagem de Lóri: a primeira parte é voltada para seu autoconhecimento; ela reconhece que é preciso continuar a viver mesmo diante de contrariedades impostas pela vida moderna, que forçosamente faz com que as pessoas assumam uma identidade artificial. Passa a conviver melhor com o próprio silêncio, que a coloca a sós consigo mesma, sem ruído que a distraia de seu verdadeiro eu e a aproxima de sua verdade mais secreta. Chega à conclusão que a dor é inevitável, mas é possível escolher a razão da dor. Percebe que a alma é muito maior que os limites de um corpo físico, e que ela não sabe dar vazão à própria liberdade, bem como entende que nem tudo precisa de uma explicação. Aprende, aos poucos, a amar e a ter alegria, e o ápice de toda essa assimilação é atingido quando diz a Ulisses, deixando-o surpreso:

 

“ — Um dia será o mundo com sua impersonalidade soberba versus a minha extrema individualidade de pessoa mas seremos um só”.

 

A segunda parte é voltada para o lado externo, ou seja, para as pessoas e para a experimentação do mundo, com suas cores, formas e sons diversos. Lóri se permite entrar na realidade sem, contudo, ser como uma estranha, mas uma participante cautelosa. A princípio ela volta sua atenção e cuidados para seus alunos da escola primária, se preocupando verdadeiramente com eles como pessoas que precisam de seu carinho, enquanto o que a introduz ao ritmo do mundo é um passeio que faz por uma feira, na qual experimenta uma fruta como se provasse a vida pelas mordidas e conhecesse e medisse suas particularidades pelo sabor, pelo contato direto. Entretanto, os seus avanços nem sempre significam uma vitória definitiva. Algumas vezes Lóri precisa ir com mais calma e não empreender toda a sua força de uma só vez.

 

“— Ulisses, eu estava indo bem e de repente estou indo muito mal.
Ele disse:
— Você deve ter ido longe demais para quem começa”.

 

Embora Lóri pareça depender totalmente da mediação de Ulisses para avançar, por se tornar mais conhecida de si própria, ela passa a não sentir mais tanto desejo de vê-lo, o que não significa que ela tenha deixado de amá-lo. Ela apenas descobre como equilibrar as medidas da balança no que diz respeito à consideração por si própria de um lado e pelos demais, de outro. É o próprio Ulisses quem lhe diz haver dois tipos de aprendizagem:

 

“— (…) Muitas coisas você só tem se for autodidata, se tiver a coragem de ser. Em outras, terá que saber e sentir a dois. Mas eu espero. Espero que você tenha a coragem de ser autodidata apesar dos perigos, e espero também que você queira ser dois em um”.

 

Quando finalmente Lóri se torna uma pessoa plena, é Ulisses quem passa a ansiá-la, sem, todavia, exigir Lóri para si próprio: deixa que ela vá por conta própria até ele, no momento que achar melhor. E esse gesto dele para mim é realmente nobre, porque apesar de ter se dedicado pacientemente a acompanhá-la o tempo todo e sem haver o menor contato físico entre ambos, ainda assim ele não impõe a Lóri a sua presença, reconhecendo-a verdadeiramente como um ser independente que pode querer ou não ficar com ele. Afinal de contas, a aprendizagem não se resume em encontrar um afeto romântico, mas encontrar o amor a si mesmo, ao próximo e à vida e às coisas. O amor dedicado a alguém especial é uma consequência que passa pela escolha.

Gostaria de, por fim, me deter um pouquinho no título do livro. À primeira vista, Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres aparenta ser, somente pelo seu título, um livro de autoajuda, o que faria torcer o nariz de muita gente. Mas paremos por um momento e pensemos: qualquer livro não pode ser um livro de autoajuda? Quem o classifica dessa maneira é o leitor, e não uma prateleira de livraria. Tendo em mente essa reflexão, posso dizer que o livro desta resenha foi sim, para mim, um livro de autoajuda, embora ele tenha um conteúdo extremamente denso, o que faz com que eu precise assimilar suas pérolas aos poucos, bem como Lóri teve o seu tempo para aprender.

Uma das coisas que gosto muito nesse livro é a possibilidade do título: pode ser um ou outro e os dois. A aprendizagem mencionada é bem clara com a leitura do livro, mas Lóri não só aprende a amar, mas também a se comunicar com o outro, atitude que desde os anos sessenta, década do lançamento do livro, era assunto de reflexão e preocupação. Hoje se percebe que a comunicação tem estado ainda mais difícil de realizar efetivamente, mesmo com a ascensão do fluxo intenso de informações online e das redes sociais, o que faz com que O Livro dos Prazeres ainda seja um livro atual.

 

“Esta aprendizagem incrusta-se no próprio enredar-se da narrativa. A aprendizagem faz-se, simultaneamente, entre o amar, ou seja, o dar-se a e o usufruir o outro; e o falar, ler e escrever, ou seja, o comunicar-se com e o inventar o outro”.
(Gotlib, 1989, 12)

 

Quanto ao segundo título, “O Livro dos prazeres”, estes se dão em dois planos distintos: um dentro e outro fora da ficção de Clarice, que não se preocupava em traçar um limite entre realidade e poder imaginativo.

 

“No livro, o prazer tem duas dimensões: uma — tendo como referente o personagem (Lóri encontrando Ulisses) e que é o prazer ao nível da história; outra — tendo como referente a romancista (autora encontrando a obra) e que é o prazer ao nível da criação. Clarice põe ainda na boca de Ulisses estas palavras: ‘Gosto de me ouvir falando sobre o que me interessa’”.
(Lyra, 1978, 121)

 

Clarice não se considerava literata, mas amadora, pois escreveu seus livros de forma espontânea, sem obrigações e prazos. Dessa maneira, não havia qualquer preocupação por parte dela em seguir os preceitos da ficção, como delimitá-la contra a realidade. Mais do que romancista, Clarice era uma refinada observadora da vida, e foi de sua vontade registrá-la da forma que pôde e quis. Termino este texto com a seguinte citação (verdadeira!) dessa ilustre escritora, que eu tanto admiro:

“O que sou então? Sou uma pessoa que tem um coração que por vezes percebe, sou uma pessoa que pretendeu pôr em palavras um mundo ininteligível e um mundo impalpável. Sobretudo uma pessoa cujo coração bate de alegria levíssima quando consegue em uma frase dizer alguma coisa sobre a vida humana e animal”.

(Lispector, 2010, 40)

Referências

GOTLIB, Nádia Battella. Três vezes Clarice. Rio de Janeiro: Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ, 1989.

LISPECTOR, Clarice. Crônicas para jovens: de escrita e vida. org. Pedro Karp Vasquez. Rio de Janeiro: Rocco, 2010.

LISPECTOR, Clarice. Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres. Rio de Janeiro: Rocco, 2010.

LYRA, Pedro. O movimento como a verdade do real (num romance de Clarice Lispector, in Revista de Letras da UFC v. 1, n. 1. Fortaleza: Departamentos de Letras Vernáculas e de Letras Estrangeiras do Centro de Humanidades da UFC, 1978.

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2 comentários sobre “Clarice Lispector: um convite ao prazer da aprendizagem, por Anna Carolina Messias

  1. Ana, excelente texto sobre um dos trabalhos mais bonitos e significantes que eu já li de Clarice. Tive e ainda tenho muito de Lori em mim, e muito me alegra quando outras pessoas acham um tempo para usar o texto de Clarice como porta para esses pensamentos e vivências no mundo do amor.Gostei muito!

    Curtido por 1 pessoa

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