Monte Castelo: a essência do amor puro, por Vinicius Richter

A música “Monte Castelo”, escrita e musicada pela banda Legião Urbana, é bem conhecida pelas camadas populares e intelectuais do país. Mas, além da mensagem óbvia de amor, o objetivo é mostrar a forma com a qual o texto se constrói. E a construção se dá por meio da intertextualidade, que é o contato com outros textos, de forma direta ou não.

 

 

Primeiramente podemos começar pelo próprio título, “Monte Castelo”. Esse nome remete ao lugar no qual a FEB (Força Expedicionária Brasileira) venceu sua principal batalha durante a segunda guerra. Ou seja, é uma alusão clara ao desamor, mensagem antagônica ao conteúdo do texto.

Depois, podemos dividir o texto em 2 partes, uma paráfrase bíblica e uma colagem de Camões. O texto tenta conciliar 1 Coríntios, Capítulo 13 – um dos mais bonitos livros bíblicos –  ao soneto de Camões, maior poeta clássico português.

A primeira parte se refere ao texto bíblico e diz:

 

“Ainda que eu falasse a língua dos homens
e falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria”. (1)

 

Nenhum tipo de comunicação se estabelece sem amor. Apesar de resumir a mensagem principal, no texto bíblico é criada uma série de comparações para explicar que nada é suficiente sem o amor.

 

“Ainda que eu tenha o dom de profecia e saiba todos os mistérios e todo o conhecimento, e tenha uma fé capaz de mover montanhas, se não tiver amor, nada serei”.

“Ainda que eu dê aos pobres tudo o que possuo e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me valerá”.

 

Também como se trata da essência do amor em suas características, um recurso expressivo é a predominância da personificação (o amor faz, não faz. Tem autonomia). O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. E, além disso, faz a diretriz da eternidade amorosa

 

“O amor nunca perece; mas as profecias desaparecerão, as línguas cessarão, o conhecimento passará.

 Pois em parte conhecemos e em parte profetizamos;

 quando, porém, vier o que é perfeito, o que é imperfeito desaparecerá”.

 

Agora em comparativo, respectivamente, parte da música e o versículo bíblico:

“Estou acordado e todos dormem todos dormem, todos dormem;
Agora vejo em parte, mas então veremos face a face.’’

“Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido”.

 

A figura de estar acordado enquanto todos dormem, não estando e contato com a parte bíblica, remete a uma imagem bem popularizada da guerra, a do único sobrevivente, que consegue ver todo o resultado da batalha.

Já ao que se refere ao soneto de Camões, há os versos colados que dialogam com o refrão (1).

 

“O amor é o fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer”

 

O amor não é mais trabalhado com objetivo de explicar como é o amor em suas características, ou aquilo que não tem importância sem o amor. Agora, a tentativa é de criar um conflito. O que o amor é não podendo ser, é a criação dos paradoxos. Estes que não definem o amor, e deixando a mensagem que o amor é indefinível o define perfeitamente.

Fogo que arde, se vê. Ferida que dói se sente, contentemente não pode ser triste, dor tem que doer. É dizendo que o amor é o encontro desses impossíveis que ele corrobora com a definição subjetiva e infindável do homem sobre ele.

Outra música que segue o mesmo padrão é a canção ‘’Te ver’’ da banda Skank.

O próprio texto se assume quando um dos versos conseguintes é

 

‘’Tão contrário a si é o mesmo amor’’

 

Percebemos então, que dentro da mesma música – a partir da extensão do texto pela intertextualidade- há várias construções possíveis em redor do sentimento e palavra ‘’Amor’’:

 

  • A desconstrução dele no título/ aquilo que não é amor;
  • Como condição básica da existência;
  • Tangenciando sua definição a partir das características;
  • Personificando-o para caracteriza-lo;
  • A eternidade do seu existir;
  • A impossibilidade de sua definição.

 

É com essa mensagem que Legião Urbana eterniza uma canção amorosa, e mais, reflexiva sobre o amor universal e o amor de cada um de nós. Renato nos faz amadurecer o conceito, sem deixar de lado o crescimento desse sentimento de forma empírica e pelo saudosismo. Deixo um versículo, que ainda se encontra no mesmo capítulo 13 de 1 Coríntios:

 

“Quando eu era menino, falava como menino, pensava como menino e raciocinava como menino. Quando me tornei homem, deixei para trás as coisas de menino”.

 

13726585_891308417663702_2710143914869621844_nEsse é o Vinicius Richter. Ele vai mandar uma bio pra gente. E aí você também poderá saber um pouco mais dele.

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