Diamante na escuridão da noite, por Anna Carolina Messias

A photo by Zach Savinar. unsplash.com/photos/mFYm4SZjmCY

Ao fim daquele dia, Isabel estava tentando compreender seu atual estado de espírito: estava satisfeita ou insatisfeita? Sem dúvidas ela mostrava-se dia a dia mais independente, mas também mais sozinha. Valia a pena estar sempre só apesar de tudo? Pequenas vitórias tornavam-se insossas rapidamente. Por que não conseguia viver feliz por elas por um tempo considerável? Tanta gente, lhe dizia a mãe, tanta gente queria ter a vida que você tem, você trocaria tudo o que tem, sua inteligência inclusive, pela dependência de uma companhia? Isabel não sabia como responder, tinha medo do que poderia sair da sua boca.

Encontrava-se agora na rua General Góis Monteiro, pensando nisso e em outras coisas que ela própria não saberia traduzir com palavras. As palavras eram tantas e, ao mesmo tempo, poucas. Tinha um bom conhecimento do vocabulário da Língua Portuguesa para se exprimir, coisa que ela fazia tão bem, melhor que a maioria das pessoas, especialmente aquelas que queriam ter uma vida como a dela e, no entanto, não encontrava aquelas que poderiam dizer o que ela pensava. Cansada de refletir e de andar o dia inteiro, aguardava pelo seu ônibus. Começa a admirar a paisagem do alto das construções da civilização, esta muito civilizada e nada educada, pensou. Ia ser professora. Ou pelo menos ter um diploma que a qualificava como tal. Seria suficiente dar aulas que fizessem com que as crianças aprendessem a matéria? Isso seria suficiente para fazer delas adultos bem educados, tanto formalmente quanto em matéria de coisas do coração? Ou se tornariam adultos mesquinhos, com uma falsa civilidade que esconde prazeres egoístas?

Não consigo parar de pensar, pensou. Tudo, tudo me faz pensar, pensou sem palavras. Para Isabel, tudo era motivo para uma analogia com suas próprias dores. Seria ela também, de algum modo, uma adulta civilizada e mal educada? Olha novamente para a paisagem acima dos prédios e avista o Corcovado, pequeno e distante. Isabel aguardava pacientemente pelo ônibus, a visão alternando ora para o Corcovado, ora para o horizonte de onde os veículos surgiam. Começou a escurecer. Será que era ali mesmo onde deveria tomar o ônibus? Estava desconfiando de si mesma, e a confiança construída ao longo do dia logo se restituía ao pó. Corcovado, por que tão bonito e tão distante? Eu preciso ir embora, mas queria ficar aqui te olhando. Está escuro, estou com medo, e você daí não pode me ajudar. Estava pensando demais novamente. Não é aqui, pressentiu de forma tão firme que pôs-se a caminhar. Não era ali.

O ônibus tampouco era algum que passasse por ali… como a gente se engana nessa vida, principalmente quando há beleza. Isabel pensou que às vezes o amor é assim também, o encantamento cegando certas obviedades, e em alguns casos as pessoas são extremamente civilizadas e mal educadas. É falta de educação cultivar o que não pode colher, pensou. Mas já estava divagando outra vez, precisava encontrar o local certo de pegar o ônibus certo. Já estava desfeita a ilusão, mas isso não queria dizer que não estava perdida. Envergonhada, Isabel interrogava desconhecidos na rua. Todos eram habitués do local, mas ela não, achava aquele pedaço de rua muito estranho e perigoso. Indicavam-lhe caminhos que lhe soavam surrealistas como “atravesse o subterrâneo” e, no entanto, a fisionomia daquelas pessoas estava tranquila, como se todo aquele desgoverno fosse natural. Aquilo não podia ser natural, Isabel pensava, mas eu sou minoria, o que faz de mim a verdadeira e única estranha.

Lembrou-se subitamente de Carlos, embora ele jamais tenha saído da sua mente. Mas era uma lembrança feito palavra, como as letras do seu nome, concreto quase de modo a fazê-lo se materializar diante dela. Pensou nos sentimentos que havia lhe confessado quando já não adiantava mais nada, pois ela já não poderia oferecer mais nada para ele a não ser amor. Com os olhos úmidos, abordou mais um desconhecido e foi por pouco que não lhe disse que aquilo era uma grande falta de educação, plantar e não colher. Mas ela se conteve (era muito boa em se conter), e começou a compreender para onde devia ir e qual ônibus tomar, o surrealismo, de repente, fazia todo o sentido do mundo. Depois de muito errar os seus passos, notou que havia caminhado à toa até a rua-que-dava-pra-ver-o-Corcovado-de-longe-mas-bonito, pois saíra exatamente do local onde deveria pegar o ônibus correto. Ela fez o retorno. Estava desperta, enfim.

Logo Isabel estava entre muitos homens e mulheres que lotavam o ponto de ônibus certo, ao contrário do errado, que estava ermo e sombrio. Todos os que desejam ter amor, dirijam-se para cá!, imaginou Isabel a voz de um membro da tripulação do Titanic a orientar os passageiros. Estamos todos perdidos, mesmo no local certo, refletiu confusamente. Era tanta gente que não teve como assentar-se no ônibus, quando este chegou e parou. E que velocidade! Para que tanta pressa, se vamos afundar por causa do amor? E em seguida respondeu a si mesma: porque eu sou a única que sabe que este ônibus é o Titanic. Provavelmente outros aqui também já se perderam como eu e foram para o ponto de ônibus errado, mas o tempo é capaz de apagar qualquer coisa, então aqui estão todos eles de novo, acreditando terem aprendido algo, mas não passam de uns perdidos cuja inocência é a única virtude e um de seus muitos defeitos.

640633-night-bus-wallpaper

O ônibus corria, e Isabel mal conseguia se manter de pé, firme. Doía-lhe o corpo como um grito que todos ignoram, e logo pressentiu que as dores todas são mudas. Carlos já deixara de ser letra e nome e pessoa em sua mente naquele momento, mas podia estar tão distante quanto o Corcovado naquela rua-que-dava-para-ver-de-longe-etc. que Isabel ainda seria um pouco mais fria por causa dele. Agora, em meio à incompreensão dos outros passageiros e à sua própria dor sem nome, tinha espaço para divagar sobre aquele ônibus-Titanic tão concorrido àquela hora do dia e da vida. Era noite ou meio-dia? As pessoas, ávidas, lotavam o ônibus e procuravam, procuravam… o quê? O amor, certamente. Sem nenhum método e sem nenhuma preocupação, como analfabetas. Algumas coisas são inevitáveis e nada pode a educação formal contra elas, será que seria diferente se fosse bem mais velha e tivesse dado aula para aquelas pessoas na escola? Alguém havia dito a elas em algum momento que aquele ônibus era o ônibus certo para chegar a certo destino. Cada um está indo para um canto, é claro, mas são locais relativamente próximos, caso contrário não teriam pegado o mesmo ônibus, não estariam agora acreditando que o amor tem ponto certo pra pegar.

A noite fez-se totalmente escura e somente insignificantes luzes da cidade davam algum sentido aos seus transeuntes. Isabel sentiu compaixão por cada uma das pessoas que davam o sinal e eram deixadas para trás no meio da cidade mal iluminada e começou a se perguntar se elas encontrariam o que procuravam mesmo desistindo assim, no meio do caminho, como se estivessem desistindo. Mas será que haveria um ponto final para essa busca assim como esta linha de ônibus? Mesmo depois que o ônibus esvaziou o suficiente para que pudesse se sentar, seus olhos mais de uma vez encheram-se d’água. A competição pelo amor estava cada vez mais fácil de ganhar ali, porque não havia mais tantos de muitos e suas dores aplacaram ao se sentar. Mesmo assim, a ideia de não chegar ao ponto final, somente àquele que deveria descer do ônibus a entristecia. Assim como os outros que foram saindo, logo Isabel estaria abandonada ao amor que podia ser ou não.

O lado externo do ônibus, mesmo escuro, lhe parecia cada vez mais familiar, e ela ponderou que muita gente não levava a sério aquela procura do jeito que ela levava. Pessoas talvez com mais tempo nesse jogo da caça ao tesouro estavam somente atrás de modos paliativos de obter algo genérico, sem compromissos e com a garantia do alívio fisiológico. Lembrava-se detalhadamente da aula de psicanálise freudiana: o homem tem pulsões por diferentes objetos e nunca está satisfeito. O amor que se quis hoje pode não ser mais desejado amanhã. Isabel sentia-se infeliz por causa desse tipo de atitude, por mais corriqueiro que fosse, mas novamente se viu como a única estranha de um mundo que não lhe fazia o menor sentido, mas que era normal por nele viver a maioria das pessoas.

Já tinha notado que a despreocupação dessas pessoas as levava, às vezes, a alcançar o prêmio mais alto, o amor, e permaneciam falsamente nele, manipulando-o como uma consequência não desejada mas bem-vinda. Carlos julgara Isabel mais uma surrealista na multidão, e enganou-se. Amargamente concluiu que a única educação dele foi ter interrompido aquele teatro antes que fosse pior para ela. Isabel fungou ruidosamente. Mas sentia-se reles, como se não merecesse as mesmas honrarias daquelas que são manipuladas por mais tempo. A essa altura ele já deve ter até esquecido, não fui a primeira nem a última, pensou, sentindo-se extremamente solitária.

Desceu do ônibus algum tempo depois e saiu caminhando com suas próprias pernas, o vento urbano batendo contra seu rosto sem perfume algum, jogando-lhe os cabelos para trás e sendo apenas natureza, alheia a todo e qualquer sentimento humano, por mais que tentemos associar alegria, tristeza e outras pieguices às quatro estações. Já estava vários quilômetros distante da rua-que-dava-para-ver-o-Corcovado-distante-mas-bonito e ainda lembrava-se da pergunta da mãe, “trocaria tudo o que tem pela dependência de uma companhia?”.

Com medo de sua própria resposta, teve tempo para pensar mais uma vez no ônibus-Titanic que deixara pra trás, dividida entre desejar que ele não tivesse o mesmo fim do navio ao mesmo tempo que sim. Foi então tomada por um grande sentimento tolo que importância nenhuma tem para esta gente tão civilizada e mal educada, e também por uns versos de Drummond:

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços
(…)
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

_______________________

Os versos não resolviam coisa nenhuma para Isabel, é claro. Mas a beleza das palavras sempre foram e sempre vão ser, para ela, o que existe de mais próximo daquilo que procura.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s