O complexo melancólico, por Guido Arosa

A rejeição
Meu Pai, O Pai, quer me apagar
Quer transformar o que é privado em público
Faz-me sofrer por algo que todos nascem com:
Desejo.
Mas um dia eu desapareço
E ele haverá me apagado

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Com a rejeição que meu pai demonstra a meu sexo, entendo como um crime o que deveria entender como amor. Enquanto uns tem o direito de ostentar alianças, eu tenho apenas o de ostentar a clausura. Nasci outra coisa que ele definitivamente não teve a capacidade de vislumbrar. Os anos passam e a hipocrisia só parece aumentar. Eu fui estuprado quando criança. Estuprado! Mas para ele isso não deve ter sido tão grave em comparação ao fato de eu acessar sites pornográficos. Nunca perdoarei meu pai por ter dado a impressão de não se importar com o estupro. Mentira, impressão nada: realidade. Eu não sentirei pena dele. Como ele quer que eu o trate bem, se ele mesmo me vê como um estranho, que necessita ter seus costumes ceifados? Todos fazem o que eu faço. Todos, sem exceção. Não sou anormal. Ele é patético ao dizer que me ama ao passo que diz não entender minha condição. Então, ele não me ama, caralho. Não tenho mais motivos para viver essa relação masoquista. Minha mãe pode ser tudo, mas ela pelo menos me aceita mais que ele (é o que parece). E isso é a verdade. Eu não pedi para nascer. Sou assim ou por culpa deles, ou por culpa de Deus. Eu não busquei esse destino; fui fadado a ele. Cansei de transformar minha tristeza em lágrimas e, agora, ela sempre será arte. Porque a arte não me julga, eu não tenho que ter medo da arte; ela me entende, me aceita. Na arte, eu não sou uma exceção. Ando na rua (pior, vejo nos olhos de meus parentes) e percebo os olhares, como que soubessem e que julgassem. Por mais que me tratem bem, sei que numa hora a mão será virada na minha cara: “Sujo!” Não adianta o tanto de atenção, de carinho, de amor, de ajuda… Por mais que vocês sempre tenham sabido, se um dia sair da minha boca a realidade, se um dia for vista pelos olhos deles a minha realidade, eu serei espancado. Minha relação com as pessoas, portanto, é sempre muito ambígua, pois ao mesmo tempo em que as trato bem (quero que me amem), as rejeito (sei que elas sabem de mim e que por isso me enojam).

Meu pai me faz lembrar cotidianamente de algo que já não tenho há tempos: amor. É pelo sexo que ele me julga e repele, mas os dos meus também me rejeitam.

Quando estou diante de uma situação de rejeição familiar explícita, não consigo prever o futuro. Implodo-me e sinto que amanhã não há; que se hoje é assim, amanhã só piorará; que eu tenho que procurar um analista sério o mais rápido possível, antes que eu enlouqueça e me acabe.

Meus irmãos veem pornografia também! E você não os julga por isso. Eu já vi uns pacotes de camisinha no seu criado-mudo e bolsa da mamãe. Quando meus irmãos foram passear pela primeira vez, você comprou preservativo para eles. Você os incentivou a fazer o que não queria que eu fizesse.

Eu sumo.

Fim – meu fim.

Mas não! Eu luto e eu posso. Eu tenho ainda meus direitos e minha dignidade.

“(…) o fato é que o prazer sexual se paga quase sempre muito caro; mais cedo ou mais tarde, por cada minuto de prazer que vivemos, passamos depois anos de sofrimento; não se trata de vingança de Deus, é a vingança do diabo, inimigo de tudo que é belo” (Antes que anoiteça – Reinaldo Arenas).

***

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Não vou esperar mais nem um segundo para julgar quem realmente deve ser julgado: o estuprador! Ele, o filho da puta, psicanalista, o homem que tinha por obrigação me estudar, me analisar, me entender, me encaminhar, mas que apesar de tudo me usou, me deturpou, me colidiu, me gozou, me estuprou como se eu fosse uma simples galinha dentre tantas outras em um poleiro. Durante anos, carreguei em um saco vazio, porém pesado, o desprazer de ter sentido prazer com doze anos ao lado de um velho gordo e careca de 56. Mas o trauma finca raízes e eu não consigo sair dele. Ele está em mim. Eu vivo o trauma. Achei que o que fazia era viver, mas mentira: eu apenas arrasto uma corrente. “Cure-o de sua homossexualidade”, quiseram meus pais. Mas o analista não podia me curar de uma doença contagiosa que a ele também molestava. “Não conte para ninguém, pois as pessoas não irão entender. Eu sei que você gosta de mulheres e o que fazemos aqui é só para você saber como é a sensação. Você é lindo. Não conte para ninguém”. A quantidade de nãos vindos dele será ínfima diante da negatividade total de contexto que me construiu. Não escutarei mais meu pai (minha mãe também nunca incentivou a denúncia), que simplesmente apagou da memória o crime e está empurrando com a barriga a solução final da delegacia. Mas eu também não fiz a denúncia, certo? Por que ele, eles, nós, faz, fazemos isso? Quando eu paro e reflito, entendo que meus pais também estão traumatizados e são tão vítimas quanto eu. Isso me consola e desejo apenas permanecer calado, deixando o estupro no passado, acreditando que essa atitude será benéfica para o desenvolvimento saudável da relação familiar. Porém, não: essa fruta já apodreceu e estragou as que estavam ao seu redor. Por ter permanecido em terapia por quase um ano com o homem que me molestava, me pego acreditando que eu fui o culpado. Eu gostei do sexo. Eu induzi o sexo. Eu tive orgasmos com o sexo. Eu quis aquele sexo vil. Sentir-me culpado era a estratégia do analista – que eu não digo o nome por medo de morrer –, para que eu me imobilizasse e deixasse caminho livre para o meu estupro e o de muitos outros antes, durante e depois.

Vivo agora adulto de banheiro em banheiro procurando um pênis novo. Não sei transar em uma cama, só sei me relacionar em parques, praias, casas noturnas, puteiros, saunas. Uma relação de um mês com a mesma pessoa já me deixa nauseado e depressivo: preciso de mais todos os dias, porém mais do mesmo é igual a comprar a mesma figurinha sempre para completar aquele mesmo álbum. Preciso de grande quantidade simultânea de esperma de corpos diferentes em meu rosto para me embelezar. O risco do corpo é o meu risco silencioso. Passar a mão no cavalheiro a meu lado no ônibus, malhar minha bunda na cabine do banheiro da academia com um educador físico novo sempre, ir à praia e ter como horizonte o corpo rijo do macho e como mar o recheio da sunga daquele cavalão. Eu sou um deturpado, sim. Eu tenho asco de mim. A única coisa que ainda me dá o direito de acordar de cabeça erguida é não ter me tornado um estuprador, um pedófilo. O meu prazer, apesar da intenção de ser seguro e preservado, já me causou a sífilis. Eu fui um sifilítico. Ser julgado por ser homossexual e sifilítico pode ter sido pior do que se eu tivesse sido julgado por ser pedófilo. Não morri fisicamente por muito pouco. Mas morri de verdade por muito mais. Acho que todas as doses de penicilina tomadas não foram suficientes e hoje ainda tenho resquícios de sífilis no cérebro. Toda a resposta da minha vida, seja lá quantos anos eu viver, estará delimitada àquele ano em que fui estuprado. Eu sou aquelas tardes e noites abusadas numa saleta.

O que eu fui antes do estupro? O que eu produzi antes de estar morto e ser morto? Eu era apenas alguma coisa em processo de acontecer. Eu, sem ter noção de mim, já era um desviado e uma alma jogada do penhasco. Meus pais, desde os meus quatro anos de idade, já sabiam que eu seria um homem incompleto. Eu, o homem que não amava as mulheres: aquele que não jogava futebol, que pedia para a avó desenhar vestidos de noiva, que quis se fantasiar de sereia. Aquele menino que usava óculos de aros vermelhos, aquele que todos riam por ser pequeno dentro e fora. Quando criança, eu dei errado, apesar de me obrigarem a dar certo. Eu, por ter toda a chance de me perder, fui forçado por meus pais a ser uma pessoa achada, por bem ou por mal. Regime severo de estudos na matemática, que sempre me foi falha. Alimentação regrada, para manter-me em condições de sobreviver ao mundo. Mas eu, apesar de tudo, sempre recebi os gritos dos senhores de engenho: “Você é um ninguém: você é malcriado, responde a nós, não sabe se comportar, vive como um ingrato!” Eu vivi sabendo que eu era errado e continuo errado. Quantos tapas minha mãe já me deu, quantos arranhões minha mãe já desenhou em mim, quantos gritos eu já ouvi, tudo porque eu tentei acertar, mas segundo eles eu errava. Tentei ser alguém bom, de bem, mas devo ter sido uma pessoa muito má, um cocainômano, um ladrão, um xingador de mãe, um homem que cospe na comida a sua frente. Para minha mãe, eu como era nunca era o suficiente. Sempre eu tinha que ser alguém melhor. Eu, porém, sempre fui este pior, por mais que me afundasse na catequese. Meu pai, se me bateu, nunca praticamente. Ele me bateu com o que não disse. Já minha mãe teve inúmeras chances de me matar. Tendo como justificativa a perda de controle emocional, aos cinco anos poderiam ter construído meu jazigo, que eu caberia bem nele. Não era meu pai quem me batia, nem quem me cobrava tanta eficiência na vida, mas foi ele quem disse com as mais claras palavras: você está errado por ser homossexual. Minha mãe foi quem me bateu e me cobrou para ser eficiente na vida, mas nunca me disse com as mais claras palavras: você está errado por ser homossexual. Creio que isso fez com que eu culpasse pelo estupro mais meu pai do que minha mãe, apesar de todos nós termos culpa. Temos? Eu não ter comigo a presença do estuprador no momento em que me dei conta de que havia, de fato, sido estuprado, me fez projetar em meu pai toda a rejeição que cabia ao nefasto carregar. Somado a rejeição à minha opção sexual, o fato de a única figura masculina ali a meu alcance ser meu pai, me fez entender o grande e perfeito ódio. O nojo que eu senti por meu pai ao longo dos anos é tão incontrolável e inexplicável que chega a ser patológico. Todas as manias que ele tem me dão vontade de socá-lo com toda a força no meio de seu estômago, todo o seu corpo me dá vontade de enfiar um tiro no meio de sua face, todo ele me dá vontade de não ser todo ele.

Quem eu fui durante o estupro? Alguém que se aproveitou da situação ou foi aproveitado por ela? Rua Senador Soares, número 11, no bairro do Andaraí, na zona norte da cidade do Rio de Janeiro. Rua tranquila, sem sobressaltos, que abrigou durante muitos anos um consultório de psicanálise no segundo andar de uma casa. Era eu quem lá chegava todas as quartas-feiras, às 19 horas, para me encontrar com um tipo peculiar de assassino. Aos doze anos fui informado de que eu possuía algum distúrbio e que dele precisava tratar, porque manter-me do jeito que era teria como consequência a minha morte e a morte de meus pares. Eu era o amoral, o que nunca obedecia, o que sempre a todos desconcertava, o que estava no mundo para provocar tumulto, quem nada poderia dizer além de inferno. Provoquei os principais transtornos dentro de casa e, por culpa minha, eu fiz chorar a todos. Como eu era o estorvo maior, precisava urgentemente de tratamento. O passo a tomar era a psicoterapia, já que me espancar não estava mais provocando efeito. Dizer que eu deveria ter sido abortado também não, pelo visto. Quem me levou à morte: meus pais. Quem produziu a morte: o analista. Já sabendo que eu possuía um desvio e que deveria resolvê-lo, o homem de 56 anos e cerca de 90 quilos compactados em 1,65 metro de altura questionou-me, em sua primeira pergunta: “Quem é você?” O tempo deixa de ser claro quando os anos passam ou quando o trauma fere. Ele me colocou, certo dia, deitado no sofá e, tirando a minha calça, começou a massagear minha nuca, meus pés e minha virilha, informando: “Terapêutico”. Com o massagear, massagear, massagear, acumulei sangue no pênis e ele cresceu, cresceu, cresceu, até ficar gigante. Eu fui o culpado. Eu, quem mais além de “eu”? Sucção, escárnio, eu ali deitado. De olhos bem fechados. Aos doze anos, eu conheci o obscuro do mundo. Permaneci conhecendo este obscuro do mundo por alguns meses, mas não sei ao certo, porque o tempo deixa de ser claro quando os anos passam ou quando o trauma fere. Quando os anos passam ou quando o trauma fere. O trauma fere.

***

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A casa da Rua Senador Soares já não abriga mais o consultório. Aquela sala com sacada no segundo andar já não é mais o local onde um psicanalista dá suas consultas. A casa de tijolos expostos está ainda lá, mas não é mais o que era antes, mas continua a ser o que é para mim. Visitei aquele buraco um dia qualquer, em uma tarde de tanto calor que eu cozinhei. Enfeites de Natal rodeavam a casa, por mais que o Dia de Reis já estivesse muito atrás. Toquei a campainha e ninguém me atendeu. Quando me informei com os vizinhos, soube que há pelo menos três anos não havia mais consultório. A casa parada ali permaneceria de pé e eu sem saber onde estão o analista, meus pais, eu e meu sexo.

Sempre busco o nome do analista na internet. Encontro poucos registros que me façam crer ser ele quem eu busco. Há um no Rio Grande do Norte, professor de uma área técnica, que deve ser homônimo. Mas hoje, mais de doze anos após o estupro, encontrei dois registros. Os seguintes dizeres, no site da Igreja Contemporânea: “Eu declaro, diante destas testemunhas, que o recebo Senhor Jesus por meu legítimo esposo. Ainda diante de Deus e destas testemunhas prometo dedicar-lhe amor; fazer tudo para honrá-lo em todos os momentos, seja na alegria ou na tristeza; na bonança ou nas provações, na saúde ou na doença, na prosperidade ou na escassez; na juventude ou na velhice. Prometo ainda ser-lhe fiel em tudo; prometo jamais abandoná-lo, enquanto Deus me conservar em vida, quero andar ao seu lado com toda dignidade. Que eu fique firme neste santo propósito. Amém! Hoje, é assim que estou… Glória a Deus! Sei que ainda é muito pouco o que tenho feito, mas o Espírito Santo irá me guiar e mostrar, a cada dia, o caminho do Senhor Jesus… Obrigado, meu Deus, por ter me encontrado uma porta aberta…”. E os últimos dizeres, em um texto cujo título “Sexualidade na adolescência” traça um perfil dos prazeres e seus cuidados para com os púberes: “Para minimizar os erros educativos, é necessário que pais, professores e agentes de saúde física e mental instruam-se devidamente; se possível for, engajarem-se nos programas comunitários, sociais e das escolas onde possam desenvolver e discutir as etapas sugeridas (…) e de preferência em equipes ou em grupos, o que os deixará melhor preparados para detectarem antecipadamente as dificuldades e atenderem aos questionamentos, respeitar-lhes os sentimentos e assim, melhor orientarem e conduzirem pelos caminhos que melhor se adequem às situações de cada criança e de cada jovem, ajudando-os a compreenderem seus problemas e suas dificuldades”. Quem é esse homem? Não digo seu nome por medo de morrer.

 

 

 

f80c4602-1bd3-4d4b-8a3f-7c481675f4adGuido Arosa é mestrando em Teoria Literária pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura da UFRJ. Alguns de seus poemas foram publicados pela primeira vez no jornal “O Globo”, entre 2010 e 2011, e, em 2011, teve um texto publicado na coletânea de contos “Sexo para iniciantes” (Editora Faces). Possui três livros ainda inéditos: “O complexo melancólico”, “O mundo diz poesia” e “Tríptico dor: homossexual, abusado, doente”. Para conhecer mais de seu trabalho, acesse: http://www.guidoarosa.blogspot.com.br

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