O luar nas palavras, por Janaína Varello Coelho

Hoje é um dia memorável para religiosos e para os amantes da lua: celebramos o dia dos Santos Cosme e Damião e o eclipse lunar. Para alguns cristãos, a coincidência desses dois eventos pode ser considerada um sinal profético. Para mim é um momento de reflexão sobre a vida e suas circunstâncias. A lua, por ter uma aparência inconstante, foi e continua sendo matéria de inspiração e devaneios para muitos poetas.

Alguns poetas românticos com seus ideais artísticos filosóficos faziam da lua o seu refúgio da realidade do mundo. A nossa literatura possui artistas magníficos, que celebram a lua como sua musa. Um deles é Álvares de Azevedo, poeta marcado pela dualidade existencial, que buscava, muitas vezes nas coisas imprecisas, desatar seus sentimentos. Nota-se isto no poema “Luar de Verão”, em que o poeta busca inspiração para cantar perguntando a si mesmo, em versos de dez sílabas métricas, qual a imagem que vê: “o que vês trovador?”. Tal pergunta é repetida em três estrofes do poema como recurso de realce, de certificação para as imagens observadas, que ele mesmo responde: “Eu vejo a lua” / “No esguio tronco” / “No céu formoso”. Há também rimas interpoladas que sugerem as fases da lua assim como a sinestesia para detalhar o reflexo da luminosidade da lua: “Eu vejo a lua” (visão), “tão liso como um pau-de-cabeleira” (tato), “respiram efluviosa maresia!” (olfato), “ao sopro dos favônios feiticeiros” (audição), “teu romantismo bebo, ó minha lua” (paladar).

Manuel Bandeira, poeta da simplicidade, também exaltou a lua, todavia, de forma diferente. Em “Satélite”, o poeta narra o surgimento da lua no fim de tarde como se estivesse observando-a de um telescópio: “A lua baça / Paira / muito cosmograficamente / satélite”. O advérbio cosmograficamente exprime a disposição natural da lua, isto é, um universo constituído por sua regularidade e particularidade. Tal recurso é um clamor pela ordem natural e pela autenticidade. O título do poema com o nome de “Satélite” e não de lua, retoma o significado da palavra: corpo celeste que gira em torno de outro. Ele apresenta, em um primeiro momento, os satélites artificiais que são lançados por foguetes. Porém, ao longo do poema, percebemos que tal nomeação nada mais é que uma desconstrução de todas as atribuições metaforizadas dadas à lua (como vimos, por exemplo, no poema de Álvares de Azevedo). Além disso, a disposição dos versos livres do poema reitera o despojamento para a criação poética livre da regularidade métrica, do ritmo e de todo misticismo que a corrobora. Bandeira quer a “coisa em si”, não apenas nas temáticas que envolvem o poema mas também na liberdade artística.

O contraste desses poemas afirma a reanimação da existência que a lua provoca. Agora, se o eclipse lunar junto com a celebração dos santos é um prenúncio de algo, isso eu não sei. Mas percebo que o pontinho branco no céu escuro reforça muito o drama existencial humano, alimentando a imaginação dos poetas.

 

 

 

Essa é a Janaína Varello Coelho. Ela vai mandar uma bio pra gente. E aí você também poderá saber um pouco mais dela.

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