Algumas sugestões e algumas lições das Ciências Sociais, por Ricardo Braga

As Ciências Sociais como campo específico do conhecimento sobre as relações sociais envolve três áreas que, às vezes, mantêm diálogo entre si: Sociologia, Antropologia e Ciência Política. Se quiséssemos reduzir estas disciplinas a três conceitos chaves, poderíamos pensar em: sociabilidade, cultura e conflito.

Não há nenhum consenso em torno destes conceitos: as Ciências Sociais, em geral, são marcadas por distintas e opostas posições teóricas e metodológicas que resultam em diferentes análises, visões e representações do mundo social. Mas, ainda assim, culturas são formadas a partir de redes de sociabilidade, a partir de pessoas interagindo, criando identidades, práticas, valores e memórias que não são harmônicas nem entre si e nem em relação a outros grupos com outras culturas. Deste modo, do uso em conjunto de três simples conceitos surgem problemas complexos: desigualdade, estratificação social, etnocentrismo, instituições políticas, autoritarismo, movimento social, exploração e muito mais.

 A dificuldade de sugerir livros que abram alguma trilha por dentro destas ciências é enorme. Portanto, como toda delimitação, esta lista também será aleatória: outro cientista social ofereceria outros livros. Felizmente a multiplicidade de sugestões de leitura pode ser positiva por nos oferecer muitos olhares e compreensões das nossas vidas em sociedade. A lista foi pensada, portanto, para refletir a potência das Ciências Sociais contra os processos de desumanização e contra o fatalismo.

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Tertuliano Máximo Afonso, personagem não-tão-singular de José Saramago, em O Homem Duplo, nos diz que há duas formas de se ensinar História: de trás pra frente, tentando seguir o caminho tortuoso dos eventos; ou de frente pra trás, buscando nos nossos acontecimentos recentes suas raízes históricas, suas muitas causas e muitas vias. Conhecer a história das Ciências Sociais pode ser muito interessante para pensar em como estes conhecimentos se consolidam para criar uma identidade moderna/racional/superior em comparação com os povos e sociedades fora do eixo europeu; ou ainda para pensar a transição da sociedade tradicional para a sociedade moderna, capitalista.

Contudo, para aqueles que querem compreender o mundo que os rodeia, ler demais sobre o século XIX europeu pode ser cansativo ou mesmo confuso. Talvez mais frutos sejam colhidos se seguirmos a sugestão do professor de História Tertuliano. Deste modo, vou sugerir alguns livros recentes que nos permitam olhar para o nosso cotidiano e compreender como estamos ligados por muitas teias aos nossos municípios, estados, regiões, continentes e mundo.

Existem muitas outras sugestões de obras contemporâneas que não estão aqui e, certamente, todos os grandes clássicos das Ciências Sociais: Max Weber, Karl Marx, Émile Durkheim, Norbert Elias, Pierre Bourdieu, Marcel Mauss, Ruth Benedict, Georg Simmel, Franz Boas, Nicolau Maquiavel… Bem como os nossos clássicos: Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior, Antonio Candido, Victor Nunes Leal, Josué de Castro, Maria Yedda Linhares, Gilberto Freyre, Celso Furtado, Francisco de Oliveira… Estes ficam apenas como citações e como curiosidade, pois sem ela, sem esse desejo de entender, nada é possível.

A primeira sugestão é o livro do francês Bruno Latour: Reagregando o Social (obra de 2005). Neste livro o filósofo/antropólogo/sociólogo pretende reorientar as Ciências Sociais, em especial a Sociologia. Daqui retiramos nossa primeira lição: não somos capazes de ver o social andando por aí, tomando água, respirando, passando fome ou amando. O que existe são pessoas com seus desejos, conflitos, amores, medos, intuições, reflexões, saberes e interesses que se relacionam com outras pessoas. Estas pessoas podem criar instituições: famílias, classes, escolas, igrejas, Estados, organizações, nações. O interessante deste livro é a crítica que ele realiza às teorias clássicas, mas é sempre importante não comprar um combo sem conhecer as suas partes: antes de comprarmos a crítica, é preciso fazermos nós mesmos o trabalho crítico e ler os clássicos, mas partir de uma obra recente que fale de seus antepassados pode nos auxiliar na compreensão destes.

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O segundo livro que sugiro é O novo espírito do capitalismo, de Luc Boltanski e Ève Chiapello (obra de 1999). Destes autores, também franceses, nos surge a nossa segunda lição fundamental: o fatalismo obscurece a nossa visão, o nosso pensamento crítico e a nossa capacidade de raciocinar e agir. O que o mundo social fez, o mundo social pode desfazer. Deste modo, o trabalho dos autores pretende olhar as transformações do capitalismo e da sociedade nos anos de 1970. Esta análise recente e de fôlego nos permite compreender muitos dos nossos problemas atuais. Também nos permite compreender que as coisas mudam em parte e se mantêm em parte: mesmo algo como o capitalismo (que existe há pelo menos 300 anos, não muito na história do mundo, mas bastante para uma geração) mantém alguma de suas características e se adapta com a nova configuração do mundo em sua volta. As coisas mudam e podem ser mudadas, e as Ciências Sociais têm um papel fundamental em fomentar a crítica social.

Nossas próximas obras serão brasileiras. É importante conhecermos o nosso próprio passado e presente. Minha primeira sugestão é a obra do historiador José Murilo de Carvalho, Cidadania no Brasil (de 2001). Esta obra traça um panorama da vida política da Independência (1822) à Redemocratização (1988) e do surgimento de nossos direitos civis (direito de ir e vir, liberdade individual, direito à propriedade, etc.), políticos (direito ao voto, a ser votado e à participação política) e sociais (seguridade social, legislação trabalhista, previdência social, segurança, saneamento, saúde, educação, etc.). Como mostra José Murilo, no Brasil os nossos direitos sociais nasceram de um governo autoritário (Estado Novo de Getúlio Vargas) e vieram antes da consolidação dos direitos civis e políticos. O resultado disto é que por muitos anos – e até hoje – os direitos sociais são vistos como presentes e dádivas de uma figura todo-poderosa e paternalista (e como tal pode ser tanto bondosa quanto repressiva): o Estado, o patrão, o político, o coronel, o pai. Como o historiador nos mostra, apesar destes direitos serem conquistas de movimentos sociais organizados e combativos, eles refletem a fragilidade de nossa democracia, tão constantemente abalada.

Minha próxima sugestão é O povo brasileiro (de 1995), de Darcy Ribeiro. Neste trabalho o antropólogo e educador buscou refletir sobre a formação da sociedade brasileira: de 1500 à 1995. Apoiando-se em muitos trabalhos clássicos sobre o Brasil (muitos do próprio Darcy), o autor fala sobre nosso passado e sobre nosso presente: os muitos sofrimentos, esperanças, desejos e insatisfações daqueles que vivem nesse “moinho de gastar gente” chamado Brasil. Assim, o autor irá analisar os muitos Brasis que formam o Brasil: o crioulo, o caboclo, o sertanejo, o caipira e o sulista, onde destes conglomerados pode nascer uma síntese, ainda por se consolidar, do que é o Brasil, em especial do Brasil que queremos. Aqui vemos nossas lições ganharem força: conhecer a formação do nosso presente deve servir para mudarmos não o futuro, mas o presente, o agora: o tempo de viver. Conhecer nosso passado não é apenas conhecer os acontecimentos históricos, mas conhecer os homens e mulheres que sofreram e deram à luz ao Brasil de hoje.

Esse é o Ricardo Braga. Ele vai mandar uma bio pra gente. E aí você também poderá saber um pouco mais dele.

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Um comentário sobre “Algumas sugestões e algumas lições das Ciências Sociais, por Ricardo Braga

  1. Excelente, e muito bem lembrado deste grande Historiador: “Como mostra José Murilo, no Brasil os nossos direitos sociais nasceram de um governo autoritário (Estado Novo de Getúlio Vargas) e vieram antes da consolidação dos direitos civis e políticos. O resultado disto é que por muitos anos – e até hoje – os direitos sociais são vistos como presentes e dádivas de uma figura todo-poderosa e paternalista (e como tal pode ser tanto bondosa quanto repressiva): o Estado, o patrão, o político, o coronel, o pai. Como o historiador nos mostra, apesar destes direitos serem conquistas de movimentos sociais organizados e combativos, eles refletem a fragilidade de nossa democracia, tão constantemente abalada.”

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