Tão curta vida, tanto amor, tantos livros, por Pablo Rodrigues

A William Cunha

Um dos meus melhores amigos me disse um vez, que entrar numa livraria, o que serve para bibliotecas, significava o que está expresso em um dos versos de Camões: “Para tão longo amor tão curta a vida!”. Nunca entendi ao certo, o motivo real da escolha desse verso camoniano, para expressar o sentimento que temos diante de uma miríade de livros. Esse verso sempre me vinha a cabeça. Hoje, buscando organizar minhas leituras, o que sempre fracasso, lembrei de meu amigo e desse verso do grande poeta português.

O tempo é necessário para a leitura de literatura, o que dirá um poema. Só compreendi um verso do Drummond depois de alguns meses. E talvez esboço compreender hoje, sem direito a prepotência e arrogância, a escolha que meu amigo fez do verso de “Sete annos de pastor Jacob servia”.

A história bíblica fala de um amor. Jacó amou primeiro Raquel. Mas por ser mais nova, ela não podia ser a primeira a se casar. Labão, o pai de Raquel, engana o patriarca do povo de Israel. Ele lhe dá Leia, irmã de Raquel. A noite deve ter sido boa, e Jacó só percebe a troca depois. Após sete anos de trabalho pela mão de Raquel, receber Leia não deve ter sido fácil. Mas Jacó deseja Raquel. E trabalhou mais sete para conseguir ficar com sua amada. O verso que tanto impressionou meu amigo, diz justamente que para um grande amor, a vida é curta. Mas essa mesma vida curta, deve ser entregue sem medo. Mirando agora a entrada em uma livraria penso: “é muita pouca vida para todos esses livros”. Cada livo a espera do meu olhar, das minhas leituras e das minhas anotações.

Virginia Woolf dizia que todos nós temos um fascínio com a vida alheia. Olhamos para as janelas acesas dos prédios, interessados nas vidas que lá se escondem. Como não podemos saber o que lá se passa, só em conjecturas, lemos biografias. O próprio pai de Virginia foi um biografo, escrevendo sobre Samuel Johnson, Alexander Pope, Jonathan Swift, George Eliot e Thomas Hobbes. A autora fala com conhecimento de causa. As biografias seriam um acesso a vida que não se pode conhecer na realidade da vida objetiva.

Não muito diferente, Proust, em seu primeiro livro da série Em busca do tempo perdido, nos ensina sobre nossa impotência diante da vida, pois só temos a certeza de uma vida vivida.  Não podemos ter todas as vidas que queremos, diz o romancista, entretanto, temos nos livros o que mais se aproxima da possibilidade de viver o que desejamos. Marcel Proust nos dá a grande afirmação, de que a vida plenamente vivida é a vida pela literatura.

Borges nos diz uma a frase lapidar: “Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livraria”. E sei o que é isso todas as vezes que entro em uma livraria ou biblioteca. A relação é religiosa. A plenitude da viva em paraíso.

O crítico Harold Bloom, falando de Shakespeare, deixa submergir sua opinião semelhante aos autores já citados. Cito Bloom: “Sou ingênuo bastante para ler, constantemente, porque não posso, na minha própria vida conhecer tanta gente, de maneira profunda”.

“Para tão longo amor tão curta a vida!”. Sinto um pesar na frase de Camões quando a leio como impotência diante dos inúmeros livros que não poderemos ler. Tão curta vida, tanto amor, tantos livros. Mesmo assim vou a procura de mais um livro, ensaios, peças, contos, crítica, ciência política, filosofia, literatura… Ler é o melhor remédio.

São muitos livros para ler, e a vida é curta. Mas a cada livro terminado a gente se lança na busca de um novo livro, de uma outra vida possível. É sobre isso que este texto trata.
Forte abraço!
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