O verso de Benedicta de Mello, a poetisa cega, por Vinicius Richter

Conheci Benedicta de Mello ao pesquisar a autoria de um verso engraçadinho que minha vó sempre canta pra mim. Pensei, pela estrutura, ser parte de uma tradição oral, talvez oriunda do trovadorismo ou até mesmo do repentismo nordestino. Cantado a forma de minha vó, ele fica assim:

 

“tu disse que me amava
Eu fingi que acreditei.
Era tu que me enganava
Ou fui eu que te enganei? “

 

Benedita nasceu em Vivência, Pernambuco, em 1906, mas foi registrada no Rio de Janeiro. Cega de nascença, foi escritora, além de professora do Instituto Benjamin Constant, para deficientes visuais,também no Rio.

Pouco se sabe sobre a vida de Benedicta de Mello e sua obra. As informações escassas divergem inclusive entre Benedita e Benedicta, Melo e Mello. Isso lembra o barroco brasileiro, a “época Gregório de Mattos”, na qual se produziu pouca informação sobre a vida dos escritores e uma dúvida sobre a autoria dos poemas. Apesar disso, é indiscutível o poder dos versos considerados de autoria de gregório, e de sua importância. Nesse sentido, pretendo mostrar a situação análoga que se encontra em benedicta de mello, poetisa marginalizada e cega, que encontra a beleza em sua forma mais pura dentro de suas rimas.

Ainda descobri outros versos a moda trovadora, que resumem muito bem algumas questões universais em poucas palavras

 

“destes tudo que tinhas
Tudo que a vida te deu
Amor firme não me deste…
Só podes dar o que é teu”
 
“do nada fez Deus o mundo
– afirma a História sagrada
É por isso que no fundo
O mundo não vale nada”

 

Sonetista com primor, Sua obra prima é o livro ‘’lanterna acesa – 1939.’’ A questão da luz e cor é constante em sua obra e seus versos simples traduzem toda a simplicidade e a beleza de sua escrita popular- embora não popularizada.

Seus sonetos mais bonitos falam sobre a passagem do tempo e a cegueira. Em determinados momentos, é impensável conceber que uma pessoa cega tenha escrito e descrito com tanta clareza e simplicidade o mundo em seu redor.

 

Bendita cegueira
 
Não vi ciscar a terra o pintinho
Nem vi no lago espreguiçar-se a lua.
Não vi num ramo balançar-se o ninho,
Nem no dorso do mar vi a falua.
 
Não vi, em frente, o rumo ao meu caminho…
Vi ruidosa e deserta cada rua…
Meu ser em toda parte a vi sozinho…
Não vi o mato verde, a pedra nua…
 
Mas se não vi a graça de uma flor
Nem plumagem de pássaro cantor,
Bendigo o que não vi, para meu bem…
 
Não vi o frio olhar de quem renega…
E a dor de minha mãe ao ver-me cega…
E o rosto de meu pai, quando morreu…
 
Palavras atualizadas:  balouçar-se – balançar-se / pintainho- pintinho
 

 

Em alguns poemas é possível ver uma marca conceptista (jogo de palavras) bem característica dos repentistas nordestinos, marcas que são herança de um conceptismo barroco.

 

Treva e luz
 
Quem diz que cego não vê luz, não pensa
Que o Pai dá tudo a todos igualmente;
Que entre o vidente e o cego, a diferença
É que um vê tudo, e outro tudo sente.
 
A luz com seu poder de onipresença,
A maior invenção do Onipotente,
Vários efeitos de uma Causa imensa,
Está em toda parte, em toda gente.
 
Não é por ver luz que há gente cega;
 mas por falhas de um órgão que a conquiste;
isto é verdade que jamais se nega.
 
Concordo que a cegueira é cruz pesada,
Mas se alguém nada vê por não ter vista,
Quem tem vista, sem luz, já não vê nada.
 

 

Assim como Gregorio brinca com a parte pelo todo, no poema ‘’treva e luz ‘’, benedicta, no poema acima, faz um jogo entre o claro e o escuro, também tema barroco.
Apesar disso, dizer que benedita é um tipo de neobarroca, sem pesquisa prévia seria um equivoco. É evidente, no entanto, que a cultura nordestina por si conserva características da escrita colonial, a exemplificar a tradição oral.
Em alguns sonetos é possível ver uma característica especifica de benedita, a transfiguração do eu lírico em objetos, como afirma em um de seus versos – ‘’há mais alma em certas coisas do que em certas criaturas’’

  
O relógio
 Toda a nossa ventura enternecida,
Meu relógio a marcava hora por hora.
O dia em que tornaste à minha vida,
O amargo instante em que foste embora.
Não gosto dele. Continua a lida,
Contando o tempo em que te encontras fora.
Por que não para, se me vê sentida
E me entristece a sua voz sonora?
Quero um relógio assim como o arco-íris,
Que vem ou vai, com horas singulares.
Compra-me um destes, quando acaso o vires…
Um que tenha expressão enquanto o olhares.
E que se atrase antes de tu partires,
E que se adiante para tu voltares.

 

No soneto ‘’gravata’’, Benedicta  consegue solidificar a dupla interpretação, fazendo com que o leitor se descole de seu papel no mundo, assim como do objeto como algo inanimado, para criar uma relação mútua de coexistência.

 

fui encontrar no chão, abandonada.
Certa gravata que te dei outrora
E que por estar feia e desbotada,
Deitaste a um canto quando foste embora
 
Ela foi como eu fui, a ti ligada,
Por um abraço já desfeito agora.
Foi como eu fui, um dia desprezada.
Não tive jeito de jogá-la fora.
 
Gostaste dela e dela desgostaste…
Guardo-a comigo então. Pois em verdade
Sou também coisa que tu rejeitaste.
 
Hoje não sou mais uma, somos duas,
E valemos nas horas de saudade
Pobres gravatas que já foram tuas.
 
 

A poetisa teve uma vida longa, morrendo em 1991, com 85 anos.
Bnedicta de mello, A poetisa cega, que nos faz perceber o quanto sabemos enxergar, e pouco sabemos ver.

 

“e sendo cega, pude ver-te lindo”

 

 

 

 13726585_891308417663702_2710143914869621844_nEsse é o Vinicius Richter. Ele vai mandar uma bio pra gente. E aí você também poderá saber um pouco mais dele.

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