O sul, de Borges: um convite às leituras, por Luiz Henrique Lemos

Este presente texto seria apenas mais uma crítica e análise literária sobre uma sofisticada produção literária de Jorge Luís Borges, escritor argentino que muito se dedicou na prosa, na poesia e principalmente no estilo do realismo fantástico. Entretanto, torno o artigo um convite a todos os leitores, seja do Projeto Embarque e demais redes, seja dos de Borges, à leitura, pois acredito que o autor tem seus seguidores – e dos mais fieis e empolgados.

A obra que discutiremos é o conto O Sul, publicado no livro Ficções, em 1944. A última data foi a de conclusão da produção da obra, porém, ao deparar-se com duas divisões dela – Os Jardins das Veredas que se bifurcam e Artifícios – , a primeira tem datada sua criação em 1941. Em Artifícios, onde encontra-se o citado conto, Borges, no prológo, faz algumas observações sobre os contos da respectiva seção, e faz a seguinte observação: “De ‘O Sul’, que é talvez meu melhor conto, basta-me prevenir que é possível lê-lo como direta narrativa de fatos novelescos e também de outra maneira.” (1999, p. 52).

Agora podem perceber a intencionalidade do título deste artigo. O próprio autor indica que podemos fazer duas leituras sobre o conto e, possivelvemente, temos a escolha da leitura que podemos fazer, a partir da nossa sensibilidade e percepção diante do texto.

Quando lemos como direta narrativa de fatos novelescos, apenas nos prendemos aos fatos que neles acontecem; nossos olhos se prendem ao enredo apresentado. Fazemos apenas uma leitura superficial e básica reconhecendo apenas o(s) personagem(ns), o tempo e espaço(s) da narrativa, progressão da narrativa, o clímax e o desfecho. Creio que por se tratar do nosso literário argentino, é difícil ficar somente na superficialidade da narrativa sem procurar, ao menos, os implícitos que ali foram postos. Não foi por acaso que, através de seu discurso, complementou que podemos ler também de outra maneira.

O Sul, em minha opinião, é um convite à uma viagem ao aprofundamento do pensamento humano. Se analisarmos semanticamente – talvez literariamente também – o título deste conto, tomamos o sentido do inferior, do abaixo, do longe, do desconhecido, do esquecido, do subterreno, do interior e tudo que nos remete ao que se relaciona ao interior, profundo e distante. A narrativa é construída de maneira tal que nos apresenta dualidades em si. Para explicar isso, destaco este seguinte trecho: “A realidade gosta das simetrias e dos leves anacronismos” (1999, p 90). Simetria e anacronismo são características que podem ser percebidas durante o conto, principalmente a partir do parágrafo em que encontra-se a frase anteriormente citada.  É neste momento em que o personagem, Juan Dahlmann, egressa da clínica em que ficou internado após um ferimento na cabeça e vai à uma viagem para o Sul, local de sua infância.

Para oficialmente esse artigo deixar de ser uma análise, o que está majoritariamente se tornando, e ser, de fato, um convite à leitura do conto, em sua aparência breve e belíssimo, deixo apenas alguns pontos a serem observados para pensarmos o importante aspecto na sua narrativa que apresenta um significado do insconsciente, do onírico, ainda mais em seu final revelador e que, em certa parte, nos revela a verdadeira intenção de seu conto.

Pensemos no anacronismo que encontraremos através do sujeito do enredo, que durante sua viagem comenta sobre as possíveis subjetividades que em si carrega: o sujeito contínuo, liberto pelo espaço e pela sua trajetória de viagem e na exploração de sua amplitude, e o sujeito estático, paralisado por sua impossibilidade e sofrimento.

Outra questão a ser abordada pelo texto e analisada por nós, leitores,  é a metáfora que explica esse processo literário de Borges neste conto, através do episódio da cafeteria em que o personagem degusta o café enquanto acaricia o gato: “aquele contato era ilusório e que estavam como separados por uma vidraça, porque o homem vive no tempo, na sucessão, e o mágico animal, na atualidade, na eternidade do instante.” (1999, p.90).

Não só vos convido à leitura de O Sul, como também o autor, através dele, nos convida a pensar o que é o insconsciente, que é o real e o ficcional presente neste contexto deparado pelo contato com esta preciosa leitura. Desejo uma boa viagem e que embarquemos nesse Sul fantástico que Borges nos proporciona.

 

 

 

Luiz Henrique Lemos, carioca, estudante em Letras Clássicas pela UERJ, professor, poeta nas horas exatas, amante da mitologia grega e curioso por natureza.

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