4 poemas sobre a morte, escolhidos por Pablo Rodrigues

Seguem 4 poemas sobre a morte. João Cabral, Vinicius de Moraes, Manuel Bandeira e Cecília Meireles. A morte nivela a todos, e diante dela os ricos e pobres, sábios e ignorantes, homens e mulheres, jovens e velhos não serão poupados. Alguns dizem que criamos a eternidade como essa recusa a afirmação “Vamos morrer.” Na arte consagramos a expressão “Lembre-se de que você vai morrer”, “Lembre-se da morte”, “Momento mori”. Giovanni Martinelli em seu quadro nos ensina que a morte vira a jantar conosco. A antropologia nos presta o serviço a questionar as mais variadas culturas e questioná-las “O que é a morte?”. Para os nativos brasileiros um equivoco, mas os cristãos a morte é castigo. Fica o convite à leitura!

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Martinelli, Giovanni. Death Comes to the Banquet Table (Memento Mori) circa. (1630)

 

Contam de Clarice Lispector,
João Cabral de Melo Neto

Um dia, Clarice Lispector
intercambiava com amigos
dez mil anedotas de morte,
e do que tem de sério e circo.

Nisso, chegam outros amigos,
vindos do último futebol,
comentando o jogo, recontando-o,
refazendo-o, de gol a gol.

Quando o futebol esmorece,
abre a boca um silêncio enorme
e ouve-se a voz de Clarice:
Vamos voltar a falar na morte?

 

A morte,
Vinicius de Morais

A morte vem de longe
Do fundo dos céus
Vem para os meus olhos
Virá para os teus
Desce das estrelas
Das brancas estrelas
As loucas estrelas
Trânsfugas de Deus
Chega impressentida
Nunca inesperada
Ela que é na vida
A grande esperada!
A desesperada
Do amor fratricida
Dos homens, ai! dos homens
Que matam a morte
Por medo da vida.

 

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Os atores Bengt Ekerot e Maz von Sydow em cena do filme O sétimo selo, de 1957, dirigido por Ingmar Bergman. O cavaleiro joga xadrez com a morte na esperança de retardas a ação dela.
Consoada,
Manuel Bandeira 
Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável),
talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
– Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com os seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

 

7ª parte do poema Elegia,
Cecília Meireles

O crepúsculo é este sossego do céu
com suas nuvens paralelas
e uma última cor penetrando nas árvores
até os pássaros.

É esta curva dos pombos, rente aos telhados,
este cantar de galos e rolas, muito longe;
e, mais longe, o abrolhar de estrelas brancas,
ainda sem luz.

Mas não era só isto, o crepúsculo:
faltam os teus dois braços numa janela, sobre flores,
e em tuas mãos o teu rosto,
aprendendo com as nuvens a sorte das transformações.

Faltam teus olhos com ilhas, mares, viagens, povos,
tua boca, onde a passagem da vida
tinha deixado uma doçura triste,
que dispensava palavras.

Ah, falta o silêncio que estava entre nós,
e olhava a tarde, também.
Nele vivia o teu amor por mim,
obrigatório e secreto.
Igual à face da Natureza:
evidente, e sem definição.

Tudo em ti era uma ausência que se demorava:
uma despedida pronta a cumprir-se.

Sentindo-o, cobria minhas lágrimas com um riso doido.
Agora, tenho medo que não visses
o que havia por detrás dele.

Aqui está meu rosto verdadeiro,
defronte do crepúsculo que não alcançaste
Abre o túmulo, e olha-me:
dize-me qual de nós morreu mais.

 

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