“Estou filosofando”. Ou sobre quando dizem que faço cara de “Dã”

 

Uma amiga disse uma vez, em uma conversa, “Passei no ponto e Pablo estava lá… Parecia que ele não estava ali”. E de fato eu não estava. Possivelmente, algo no mundo da ideias me fisgou e me fez de servo. Ou quem sabem súdito. Ou quem sabe amigo.
 
Eu encontrei a Filosofia num dos momentos difíceis da minha vida. E de lá para cá, ela nunca me deixou. A Filosofia foi esse terreno que me aceitou. Que mal tem ser viajadão? Que mal tem manjar dos paranauês? Que mal tem ser de humanidades?
 
Hoje escutei: “Você precisa estar pra cima. As pessoas percebem em você uma tristeza”. Pensei… Talvez, ultimamente eu esteja mais triste do que feliz mesmo. Talvez a pessoa esteja certa. Talvez. Eu estava lendo… Um livro de Filosofia. Eu estava lendo sobre aquilo que a tradição reconheceu como o inicio da Filosofia na Grécia, século VI a. C. O mundo do mito, e o surgimento do confronto com o mundo do logos.
 
A adjetivação é interessante: lá vai o viajadão. Sobre Tales de Mileto diziam o mesmo. (Claro pra mim falta a genialidade dele). Lá vai o Tales com aquela cara de “Dã” olhando para o céu. Ele foi um dos sete sábios da Grécia. Estudava os astros, o que explica sua cabeça sempre virada para o alto. É claro que a queda é inevitável: “Tales que saber o que se passa no céu, mas não consegue enxergar o que está a sua frente”.
 
Essa explicação aprendi com a Marilena Chauí. O mundo desde Tales sempre olhou com desdém para os viajadões. Chauí ainda diz uma das definições conhecidas para o estudante de filosofia: “A filosofia é uma ciência com a qual e sem a qual o mundo permanece tal e qual”. Ou seja, ela é praticamente inútil.
 
Mas sobre Tales vale ressaltar algumas coisas (Vamos na Wikipédia):
 
1) O primeiro a explicar um eclipse solar;
2) Ao descobriu a explicação do eclipse lunar, revelou que a Lua não tem luz própria, mas é iluminada pelo Sol;
3) Que os ângulos da base dos triângulos isósceles são iguais;
 
Mas não quero com isso dizer “Tomem cuidado com os viajadões. Eles sabem muito sobre céu e geometria”. Não. Mas sobre a necessidade de respeito ao gesto reflexivo do coleguinha ao lado. Minha amiga foi sincera, mas não ofensiva. Eu até gosto que percebam que estou pesando, que me peguem em outro mundo, que é o mundo do pensamento. Mas não confundam e me tratem como um doente. Mas reconheça que esse gesto mais reflexivo é minha forma de existência.
 
Tenho uma filosofia. A vida é breve e mortificadora de sonhos. Como disse um amigo meu: “O mundo já tá aí pra te derrubar. Não colabore você com isso, por favor”. (Anna me disse que é a fala de um filme). E por a vida ser curta, breve, mortificadora, a gente tem que se lançar na trincheira do pensamento para potencializar os caminhos da possibilidade do afeto sincero, do amor e dos sonhos.
 
Lembrando de uma frase que li do Cortella hoje, “Não é a morte que me importa, porque ela é um fato. O que importa é o que eu faço da minha vida enquanto a morte não acontece, para que essa vida não seja banal, superficial, fútil e pequena”. E a possibilidade disso, para mim, só é possível pela via do pensamento. Uma vida pensada, logo uma vida que leva a ação. Não significa que vou acertar, mas isso tá previsto quando a gente pensa de fato a vida.
 
Eu projeto de vir a ser,
Pablo Rodrigues.
Ou o que fica as vezes com cara de “Dã”.
Publicado originalmente no Blog do Pablo Rodrigues.
 
 
 
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s