“Quando li Clarice Lispector, e pude pensar por mim mesmo, concluí que somente o impossível me interessaria”, por Pablo Rodrigues

Estou naquela fase que sinto falta de uma pessoa que conheci recentemente, mas o nome disso não é necessariamente saudade. É como se sentisse fome de um alimento que ainda não produziram. Alimento que já foi plantado, porém vai demorar para dar fruto, para ter um nome, para ser catalogado pela biologia. Como ele não permaneceu em minha isso não pode ser chamado de saudade. Entretanto, sinto sua falta. Mas isso não é saudade.

Não posso dizer que eu o amo, mas posso dizer que sinto algo que não sei nomear. Sinto que novamente fui dispensado, mas ao mesmo tempo isso não está claro. Vivo a não poder nomear as coisas. Alguém me roubou a minha capacidade adâmica. Sinto também um dor no lado direito do corpo. Não sei que parte é está. Mas algo doem em mim. Acima, sinto minha cabeça pesar, porém a cura não vem com qualquer tipo de comprimido. O que mais me angústia é não ser o que significo para ele. Mais um nome. Ou nem se quer um nome. Sem nenhuma individualidade.

Sinto o desejo de liberdade, ou seria isso: “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome”. Pensei por esses dias, por mim mesmo. Pela primeira vez em anos: “Somente o impossível me interessa”; e também “Eu saberei o que procurava quando eu encontrar o que procurava”. Volto a Clarice, “Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais”.

Sinto que a religião não pode me ajudar. Sinto que a medicina não pode me ajudar. Sinto que a psicologia não pode me ajudar. Eu? Logo eu, que sou fraco em saúde por ter nascido. Logo eu, que falhei tanto no berço? Eu não sei o que se passa comigo. Mas algo se passa comigo. Dizem que só quando tudo isso saberei dar um nome eficaz. Será?

Escrevo. E escrevendo percebo que a resposta não está no gesto de escrever. Mas escrever é o que tenho. Não sei as opções que me restam, ou as opções que ainda posso aprender para sair dessa vida. Não entenda “sair da vida” como um desejo de suicídio. Se há suicídio, pelo menos, fique tranquilo, não é suicídio do corpo.

Tudo está em ordem. E ao mesmo tempo tudo está em caos. Espero terminar Clarice para começar

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