O renascer de Carolina de Jesus no carnaval carioca


Eu denomino que a favela é o quarto de despejo de uma cidade.
Nós, os pobres, somos os trastes velhos. – Carolina Maria de Jesus

(Em parceria com a Macabéa Edições)

No dia 25 de fevereiro, sábado de Carnaval, a Marquês de Sapucaí recepcionou o segundo dia do desfile das escolas de samba do Grupo de Acesso. Renascer de Jacarepaguá, sexta escola a colocar sua alegria e o resultado de meses de trabalho e dedicação no Sambódromo, ofereceu ao público presente e aos telespectadores da TV Globo um desfile cujo enredo foi “O papel e o mar”, homenageando Carolina Maria de Jesus, escritora negra da periferia paulista e João Cândido Felisberto, o Almirante Negro. É provável que o título tenha sido emprestado do curta homônimo de 2010, com a direção de Luiz Antonio Pilar que retrata o encontro entre as duas personalidades. Você pode assisti-lo ao fim deste post.

Minha intenção, entretanto, é voltar nosso olhar para a escolha da homenageada feminina da escola de samba. Mas antes gostaria de comentar a visibilidade da literatura como parte de uma cultura ampla, tornando possível o diálogo com as classes que não possuem capital cultural elevado e atenção voltada aos livros.

Entra ano, sai ano, aqueles que se interessam pelos desfiles de escolas de samba veem diversas temáticas de enredo abordadas por diferentes escolas e a presença da literatura como tema não é exatamente uma novidade na Avenida. Neste mesmo ano de 2017, por exemplo, a grande e venerada Beija-Flor de Nilópolis, escola do Grupo Especial carioca, levou para seu desfile o enredo “A virgem dos lábios de mel: Iracema”, baseado na obra de José de Alencar, Iracema, cuja primeira publicação data de 1865. Outras escolas também fizeram suas leituras particulares de obras literárias – Salgueiro, com A divina comédia, de Dante Alighieri, datada do século XIV e Mocidade, relendo As mil e uma noites (1704), de Ynav Bosseba. Entretanto, o que faz da escolha de Carolina de Jesus como enredo da Renascer de Jacarepaguá algo que chama muito mais a nossa atenção do que os outros autores contemplados no Sambódromo?

A obra de Carolina de Jesus representa com uma maior fidedignidade a vivência brasileira através do foco voltado não só para os personagens – que são uma denúncia das péssimas condições de vida da primeira metade do século XX – como para si mesma, vizinha de seus personagens, com o aditivo de ser mulher e negra, além de pobre e com ambições cultas. Carolina desejava ser escritora, um sonho impensável para seus vizinhos na favela. Apesar do baixo grau de escolaridade, aprendeu a ler e a escrever e, quando pôde publicar seu primeiro livro, Quarto de despejo (1960), obtendo ascensão financeira e social a partir dos relatos da vida miserável à qual pertencia, seus conhecidos não aprovaram tal feito por acreditarem que Carolina se apropriou do cotidiano local para benefício próprio, e passaram a hostilizá-la com agressões verbais e ameaças de cunho moral. Mais do que o brasileiro José de Alencar, com o Brasil indígena romantizado em Iracema, Carolina retratou friamente a realidade brasileira – paupérrima e analfabeta, herdeira de uma tardia abolição da escravatura com suas consequências incontornáveis pelo descaso estatal dado aos ex-escravos.

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Rio on watch

Ainda que a publicação dos livros de Carolina tenha representado uma conquista, a escritora precisou enfrentar os desafios do preconceito e da inveja. Após Quarto de despejo, seus livros seguintes não obtiveram o mesmo sucesso do primeiro – este com suas tiragens bem vendidas e tradução para mais de uma dezena de países. É bem provável que o golpe de 1964 tenha influenciado negativamente em sua carreira, tendo em vista que o Estado passou a reprimir manifestações de cunho popular. Além disso, é necessário atentar para a dificuldade da literatura feminina, sobretudo negra, obter tanto prestígio quanto aquela escrita por um homem, seja este branco e de boa formação como José de Alencar, seja negro e pobre como Machado de Assis. Exemplos do descaso à literatura de produção feminina são encontrados em autoras como Francisca Júlia e Maria Firmina dos Reis que, anos antes de Carolina sentiram na pele as consequências de ser uma escritora mulher. Hoje pesquisadores buscam disseminar a obra dessas escritoras – pouco conhecidas em suas próprias gerações – para reparar o apagamento dessas mulheres na literatura, resultando em maior número de suas obras. As diferentes formas de hostilidade sofridas e o gênio forte de Carolina possivelmente também contribuíram para que seus livros não decolassem. Há, inclusive, um extenso material de sua autoria ainda não publicado, em fase de recuperação e estudos por profissionais que se comprometeram com o rico legado da escritora.

Carolina de Jesus não fazia parte de uma classe informada e consciente dos acontecimentos políticos, mas sua vivência de mulher negra e periférica foi o que de fato proporcionou a denúncia social por meio da escrita. Em Quarto de despejo, ao conversar com um tenente, que faz um breve comentário sobre a propensão da “delinquência” por parte dos moradores da favela, Carolina faz uma de suas denúncias: “O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora”. (Ed. Ática, 2014).

Com esses dados em mente, o que simboliza um desfile do carnaval carioca que enaltece uma personalidade brasileira como Carolina e, além disso, é televisionado pela TV Globo, mídia de amplo alcance e influência no Brasil, ainda que durante a alta madrugada, cerca de 3 horas da manhã? Embora a Renascer de Jacarepaguá não seja uma escola do Grupo Especial, nem sequer tenha obtido uma posição entre as campeãs do Grupo de Acesso, este grande gesto de uma pequena escola nos mostra que nem tudo está perdido em termos de uma cultura democrática. Em meio ao caos pós-golpe em que vivemos, com um futuro incerto e nada promissor para os menos abastados nos próximos anos, o enredo da Renascer foi um gesto político, uma mensagem de resistência àqueles que acreditam em mudanças positivas e não se conformam com uma herança pré-concebida por anos de uma história que só beneficia uma pequena parte da população.

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Carnavalesco

Divido com o leitor deste texto a esperança que tenho ao ver uma grande festa chamada Carnaval, que movimenta uma grande quantidade de dinheiro todos os anos, lícito ou não, dirigir um pouquinho da sua atenção para uma mulher negra que gostava de ler e de escrever e que não se contentava com a realidade ao seu redor, que ousava desejar para si mesma um futuro minimamente digno. “Nunca vi uma preta gostar tanto de livros como você”, dizia um dos cartazes exibidos pela comissão de frente da Renascer. Essa fala cruel e preconceituosa, diante de tantos pares de olhos ao vivo ou por trás de uma tela de TV, soa como uma proposta atrevida a cada mulher que não se encaixa em sua realidade: sejamos donas de nossos próprios sonhos e de nossa própria vida. Não me parece nada terrível.

Curta “O papel e o mar” (2010). Com Dirce Thomas e Zózimo Bulbul. Direção de Luiz Antonio Pilar: LINK

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2 comentários sobre “O renascer de Carolina de Jesus no carnaval carioca

  1. Nossa, excelente matéria. Realmente, Carolina foi uma mulher e tanto e deveria ter tido mais prestigio e reconhecimento. Já li todas as obras dela e a forma como ela descreve o cotidiano desgraçado em que vive é um deleite. Parabéns pelo belo conteúdo!

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    1. Obrigada, Maria Vitoria! Também foi um deleite se deparar com o belo enredo da Renascer de Jacarepaguá durante o desfile, o trabalho artístico envolvido e comprometimento dos componentes em levar Carolina para a Sapucaí. Uma vitória para o povo brasileiro, sem dúvida.

      Curtido por 1 pessoa

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