Eu, Daniel Blake: um olhar sobre a realidade brasileira

Ele queria ler isso […] E o Estado o levou para um morte precoce […]. Eis o que ele escreveu:
Não sou um cliente, consumidor ou usuários dos serviços. Eu não sou um desistente, um fujão, um mendigo ou um ladrão.  Não tenho meu número de seguro social marcado na tela. Pago minhas obrigações, faço meus centavos e tenho orgulho disto. Não me curvo a ninguém, olho meus vizinhos nos olhos e ajudo-os se puder. Eu não aceito ou procuro caridade. Meu nome é Daniel Blake. Eu sou um homem, não um cão. Portanto, exijo meus direitos. Exijo que me tratem com respeito. Eu, Daniel Blake, sou um cidadão,  nem mais nem menos.
(Cena final de Eu, Daniel Blake. Quando Katie lê o texto que Blake leria diante da audiência em que iria rever o pedido de auxílio saúde do governo inglês)

Mas na garganta de K. colocavam-se as mãos de um dos senhores, enquanto o outro cravava a faca profundamente no seu coração e a vira duas vezes. Com olhos que se apagava, K. ainda viu os senhores perto de seu rosto, apoiados um no outro, as faces coladas, observando o momento da decisão.
– Como um cão – disse K.
Era como se a vergonha devesse sobreviver a ele.
(Franz Kafka, em O processo)

Escrito após a aprovação da lei que aprova a terceirização para todas as atividades no Brasil.

Lançado em 2016, no Reino Unido, e com direção de Ken Loach e roteiro de Paul Laverty, Eu, Daniel Blake retrata a história de todos nós. Um trabalhador inglês que sofre um ataque cardíaco e se vê lutando contra a burocracia de seu país para receber o auxílio doença.

Considero o filme de Loach kafiano por exclência. Isso porque, o senhor Blake (Dave Johns) se vê impedido de conseguir o que é seu por direito graças a burocracia inglesa. Nas cenas iniciais do filme ele pergunta se a atendende é uma profissional da saúde. E para nossa surpresa, ou não, a atendente faz parte de um grande processo de terceirização, sendo apenas uma funcionária da atual firma que administra a saúde da vida dos ingleses.

 

“Blake é um excelente carpinteiro, porém esse saber é completamente desprezado pela sociedade em que ele está inserido”.

 

Blake é um excelente carpinteiro, porém esse saber é completamente desprezado pela sociedade em que ele está inserido. Ele não sabe acessar a internet ou usar o mouse, ou ainda, fazer seu próprio currículo. Entretanto, sabe trabalhar com a madeira como ninguém. Promete fazer um armário para livros de Katie (Hayley Squires), amizade que surge quando Daniel decide defender a pobre mãe separada de dois filhos na fila do Departamento de Seguro. A amizade se consolida ao longo do filme e entre as cenas mais lindas do filme está o momento em que Katie diz sobre seu desejo de ter livros e de estudar, e Blake momentos depois constrói para ela um estante. Ou ainda, o grande afeto e cuidado de Blake pelos meninos filhos de Katie, Dylan (Dylan McKiernan) e Daisy (Briana Shann). Vendo a necessidade de sustentar os filhos, vivendo na pobreza e roubando absorvente Katie aceita o convite de um homem para se tornar prostituta. Um momento de crise diante da moral: se a prostituição é errada ou tolerável.

 

Existem cortes preciso no filme sendo possível observar momento de escurecimentos graduais ao longo do projeto de Loach. A transição das cenas está ali, com um esmaecimento preto. Um véu negro sobre a vida e a luta de Blake, que chega a ficar mais de uma 1h no telefone com a seguradora. Ao longo vemos que o pobre Daniel Blake recebe dos homens da burocracia a pura literariedade das normas. Burocracia que por fim tira a sua vida.

 

“Eu sou um homem, não sou cão”.

 

Considero esse filme próximo de Kafka pelo desejo final de Blake: “Eu sou um homem, não sou cão”. Justamente, palavras parecidas com as de Josef K., protagonista de Kafka em seu romance O processo, “Como um cão”. Nos dois casos o que temos é a morte dos heróis como ambos fosses cães imundos. Blake morre no banheiro do prédio onde estava a aguardar a audiência sobre seu pedido de recursos. Os responsáveis da morte de K. o matam com uma faca como um cão.

 

 

Acredito que o filme é uma elemento necessário para tecer um crítica que transcende as fronteiras inglesas, chegando em terras brasileiras. O filme se perpetuará como forma de leitura de nossa realidade, neste dia 22 de março de 2017, em que se aprova a lei de terceirização de todas as atividades no Brasil.

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