Otelo, o mouro de Veneza — De William Shakespeare (Por Pablo Rodrigues)


“Ela me amou porque passei perigos,/ Eu a amei porque sentiu piedade”


Cheguei ao término de mais um livro, Otelo, o mouro de Veneza, de William Shakespeare.

Descobri meu amor por Shakespeare ainda na graduação. Achei que seria “cult” ser um leitor do Bardo, e assim comecei a leitura das peças desse que é considerados um dos maiores, se não o maior, dramaturgo de todos os tempos. Minha leitura partiu do conceito de que a literatura trás prestígio social: “Se você ler Shakespeare você será alguém”. Até porque, imagine você, caro leitor, em uma roda de conversas dizer: “Ah sim… Li Romeu e Julieta, Hamlet, Otelo… Você não? Hum…”.

Mas passado esse tipo de pensamento, felizmente, percebi que as peças do Bardo me tocavam de uma forma muito significativa. Hoje terminei mais uma de suas peças, a tragédia Otelo, o mouro de Veneza. 

Os versos que abrem esse texto é uma das belas e significativas passagens da peça, que retratam o amor de Otelo pela sua amada Desdêmona: “Ela me amou porque passei perigos,/ Eu a amei porque sentiu piedade”. Otelo um nobre mouro que serve como general no Estado veneziano. E Desdêmona filha de Brabantio, senador de Veneza. Como não podia faltar, temos um vilão! Iago, alferes, uma espécie de escudeiro de Otelo. Temos ainda Cassio tenente de Otelo que será uma das marionetes de Iago no complô contra o amor de Otelo e Desdêmona.

A peça, uma das “quatro grandes” tragédias shakespearianas tocará novamente no tema da vingança. Iago rejeitado por Desdêmona irá fazer de tudo para que o relacionamento do Mouro e a moça não dê certo, o que por fim acontece. Através da manipulação de quase todos os personagens da peça, o simples alferes consegue minar o amor mais sincero que pode existir em Veneza.

Em 5 atos vemos o duplo caráter de Iago ganhando proporções inimagináveis. O que nos faz indagar: O mal de fato triunfará? As associações com os outros trabalhos de William Shakespeare ocorre de forma automática. Devemos lembrar da vingança de Hamlet. E sobre o triunfo do mal podemos lembrar de Macbeth ao se indagar se pode o mal falar a verdade.

O que podemos esperar de uma tragédia se não o fim trágico!? Cego pela conspiração de Iago, o Otelo mata Desdêmona e por fim se mata. Devo ressaltar que o papel das mulheres nessa peça é incrível. Emília, mulher de Iago é a responsável por trazer à tona a verdadeira face do marido. Cheio de raiva Iago decide matar a própria esposa. Por fim nosso vilão é preso.

Sobre Otelo podemos entender que ele não podia lutar contra seus próprios valores: absolutos e primitivos. Ele age por impulso segundo e suas convicções. Ele não investiga as acusações contra Cássio (que Iago colocou como amante de Desdêdoma). Como um herói trágico Otelo, o mouro, aprende por meio do sofrimento.

A importância da palavra é um elemento que merece destaque. Desdêmona não consegue responder à altura as ofensas de seu Marido. Ele a chama de puta inúmeras vezes. As palavras de nada valem nesse momento. Todas falas fundamentam-se no plano ardiloso de Iago, logo todas as acusações feitas por Otelo são infundadas. Não há nenhuma relação entre a palavra e verdade. Ou seja, a palavra e a coisa em si. A verdade não vence. E de certa forma, a pobre Desdêmona é silenciada.

A reviravolta se da com o resgate de sentido feito por Emília. Ela repete e incomoda exaustivamente Otelo quando presencia o general destratar a esposa e depois quando vê a ama morrer. E com isso chama a sua atenção para uma outra possibilidade discursiva. Em resumo ela diz “Meu marido mente”. Dá uma outra leitura as informações que nos temos, por exemplo, de que o lenço usado por Iago para incriminar Desdêmona, não foi dado a Cassio como prova de traição, mas sim porque a mossa o havia perdido. A verdade ressurgi no último ato, ainda que não trazendo à vida da pobre moça que largando sua casa e seu pai decidiu fugir e casar-se com Otelo, mouro de Veneza.

Li Otelo, o mouro de Veneza, na edição Teatro completo de Shakespeare, acompanhado de introdução de Barbara Heliodoro.

[SHAKESPEARE, William. Tragédias e comédias sombrias. Tradução Barbara Heliodoro. São Paulo: Editora Nova Aguilar, 2016. v. 1]


ENTRE ASPAS

“Uma palavra ou duas, por favor./ Fiz serviços ao Estado; eles o sabem — / Não importa. O que peço é que nas cartas / Em que contarem estes tristes feitos, / Falem de mim qual sou. Não deem desculpas, / E nem usem de malícia. Falem só / De alguém que, não sabendo amar, amou / Demais. De alguém que nuca teve fáceis / Os ciúmes; porém que — provocado — / Inquietou-se ao extremo” 

[Fala de Otelo antes de seu suicídio. (p. 652).]


Pablo Rodrigues é pós-graduando do Programa de Pós-graduação em Ciência da Literatura da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro e bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Dedica-se ao estudo da Literatura em diálogo com a Filosofia na obra de Franz Kafka. Escreve regularmente em suas redes sociais e no site Projeto Embarque (www.projetoembarque.com). Acesse o seu blog (www.blogdopablorodrigues.wordpress.com) para conhecer mais do seu trabalho.

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