Fernando Pessoa: sobre uma poética do desaprender

Eu não lembro ao certo o momento exato que Fernando Pessoa entrou em minha vida. Sei que não foi por intermédio da escola. Ou ainda, antes disso, por meio de uma leitura familiar. As minhas memórias sobre Fernando Pessoa estão diretamente envolvidas com minha formação em Letras. Cursei alguns semestres de Literatura Portuguesa na Faculdade de Letras, o que significava ouvir quase, que constantemente, o nome de Fernando Pessoa.

Inicialmente me cansavam as explicações sobre Pessoa. Tudo girava em torno dos seus heterônimos, que nunca dei na época o trabalho de respeitar. A minha pergunta era simples e direta, de um jovem que caiu de paraquedas na Literatura: Que importância tem um homem que criou pessoas ficcionais e deu a eles características particulares? Para mim, essa criação soava simples de mais. Até porque, essa nossa capacidade de fingimento, palava cara a Fernando Pessoa, é tão comum. Fingimos ao longo da vida sermos tantos e ninguém.

Mas alguma coisa mudou. Devo o meu sentimentalismo português as minhas professoras de Literatura Portuguesa. Confesso que não só Pessoa, mas também, a Cultura portuguesa, era tida por mim com algo desinteressante. O que mudou, então? O que me faz hoje não só ler Fernando Pessoa, mas também escrever sobre ele, sobre chorar com ele, viver melhor com ele?

Lembro-me de uma das minhas professoras dizendo que lia Fernando Pessoa na sua juventude cheia das perturbações da fase juvenil para adulta. A leitura a salvou. Fernando Pessoa teve parte nisso. E eu que precisava também ser salvo, vi uma possibilidade de salvação possível, sem o peso do céu ou do inferno. Apenas o contentamento de estar no Tejo. O Tejo pelo Tejo e nada mais. Não pensar. Pensar é estar doente dos olhos. Entretanto, não deixar de ver.

Lia então, Pessoa diariamente. Ou melhor: Lia Pessoa no decorrer de minha necessidade de viver diariamente. Com ele aprendi uma forma singular de sobrevivência: a potência do fracasso. E seu pudesse dizer a outras gerações sobre Fernando Pessoa eu diria que sua poética é sobre a potência da fragilidade humana, repito, a potência da fragilidade humana. Não é para homens e mulheres perfeitos, pelo contrário. É para os que se enrolam nas regras de etiqueta. É para os procrastinadores das tarefas da vida. Para o que acreditam-desacreditando em Deus. Os que são cheio de sonhos, mas que sentem que são apenas nada. Os homens de alma dividida.

O verso que me traz aqui são versos simples: “Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),/ Isso exige um estudo profundo,/ Uma aprendizagem de desaprender”. Poeta da nudez da alma. Poeta da pedagogia do desaprendizado. Viva o nosso poeta.

Meu desafio de vida agora e ler, com a finco o nosso poeta. Estarei aqui as segunda-feiras falando dele. Espero que me acompanhe nesse caminha pessoano.

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