“Eu estive no topo da montanha”, de Martin Luther King Jr.

 

APRESENTAÇÃO DE Andrew Young

Nenhum outro discurso de Martin Luther King provocou tanta discussão e debate quanto a mensagem endereçada à população de Memphis, Tennessee, numa igreja pentecostal, às vésperas de seu assassinato. Sem recorrer a anotações e, aparentemente, sem qualquer premeditação, ele verteu sobre a platéia de 11 mil pessoas que se aglomerava no salão da igreja um intenso fluxo de consciência. Foi extraordinário, e a resposta das pessoas produziu aquilo que o teólogo alemão Rudolf Otto descreveu, no clássico A idéia do sagrado, como a poderosa transformação de uma situação mundana num momento transcendente, por meio do “mysterium transmondum”. Deus fez-se presente.

No entanto, nenhum dos mais próximos colaboradores de Martin acreditava que naquele discurso houvesse algo de conclusivo. Ouvíramos Luther King referir-se às mesmas idéias em outras ocasiões – normalmente, devo acrescentar, quando as circunstâncias eram, de algum modo, perigosas. No entanto, todos os perigos foram superados e não havia razão para acreditar que não o seriam novamente. Memphis não parecia mais perigosa que a Filadélfia, ou que o Mississippi, em 1964, ou que Chicago, em 1967 – outros momentos em que Martin nos dissera que havia contemplado “a Terra Prometida”.

Martin Luther King viveu os dez últimos anos de sua vida à sombra da cruz. Aos 29 anos, no Harlem, ele fora apunhalado com um estilete por uma mulher mentalmente desequilibrada. Ele freqüentemente se referia ao fato de que a lâmina pressionara a aorta em seu coração e que, se ele simplesmente tivesse espirrado, a artéria teria se rompido e ele teria sangrado até a morte.

Certa vez, uma menina de 10 anos lhe enviou uma bela mensagem: “Sou uma menina branca, mas dou graças a Deus que o senhor não tenha espirrado.”

Martin muitas vezes discutia a experiência da proximidade com a morte para lembrar a seus seguidores que a morte era uma possibilidade constante. Em geral, fazia isso de modo brincalhão, concluindo que melhor era estar preparado. “Se você não descobriu por que está disposto a morrer, não merece viver”, dizia.

Em ocasiões mais sérias, que eram raras, ele nos lembrava de que a cicatriz em forma de cruz que carregava no peito era uma seqüela daquele atentado. “Toda manhã, quando escovo os dentes e lavo o rosto, esta cicatriz em forma de cruz no peito me lembra que qualquer dia pode ser o meu último nesta terra.” Então ele sorria e dizia que tínhamos de estar certos de que valia a pena morrer por aquilo que fazíamos.

Aquele 3 de abril de 1968 foi um dia melancólico. Voltamos a Memphis simplesmente porque Martin desejara, depois que nossa marcha anterior – que começara pacificamente – fora dispersada por jovens desordeiros, pagos para provocar um confronto violento com a polícia. Estávamos acostumados a conviver com agitadores, tentativas de distorção e desinformação por parte das fontes do governo americano, mas aquela era apenas uma greve de lixeiros. O reconhecimento do sindicato e um salário que atingisse ao menos o nível de pobreza eram as reivindicações daquela paralisação. Quem em sã consciência se sentiria ameaçado por objetivos tão insignificantes naquele momento histórico?

Não sabíamos, no entanto, como o Congresso e a Casa Branca estavam profundamente amedrontados ao pensar em três mil manifestantes disciplinados, organizados e não-violentos marchando sobre Washington para travar uma batalha pelos direitos dos miseráveis. Afinal de contas, o presidente Lyndon Johnson lançara uma Guerra contra a Pobreza apenas para que ela fosse tragada pela Guerra do Vietnã. A esperança de Martin era desobrigar o governo Johnson para que pudesse se voltar para os problemas domésticos, afinal nenhuma nação sobreviveria com pessoas vivendo isoladas “numa ilha de pobreza em meio a um vasto oceano de prosperidade material”. Ele também alertou que as bombas jogadas sobre o Vietnã explodiriam em nosso quintal na forma de inflação e desemprego.

Os temores eram maiores do que imaginávamos. Martin deve ter pressentido esses temores, pois ele lutava contra um resfriado e temia uma gripe, algo que só acontecia quando estava sob grande pressão. Nunca ficava doente e raramente se medicava. Fisicamente, era forte como um touro. Mas, quando os demônios da dúvida e da ansiedade o dilaceravam, simulava uma doença e se internava para exames, a fim de descansar e refletir. (Ele se encontrava no St. Joseph’s Infirmary de Atlanta em 1964, quando foi informado de que recebera o prêmio Nobel da Paz.)

Em 3 de abril de 1968, ele se sentia doente e falava em tirar uns dias para fazer alguns exames. Eu nunca o vira tão abatido. Decidiu não ir à igreja e pediu a Ralph Abernathy48 para discursar e pedir desculpas em seu nome. Mas quando Ralph e eu chegamos e vimos a multidão que se aglomerava no Templo Mason, pedimos que Bernard Lee49 voltasse ao hotel e convencesse a Martin que ao menos aparecesse diante do público. Ralph falaria e Martin faria algumas poucas considerações.

A introdução de Ralph Abernathy durou mais de meia hora. Ele lembrou Martin e a multidão da longa luta que travavam desde Montgomery em 1955. Era o velho Ralph – um pregador fraterno e amigo – cuja vibrante oratória instigou tanto as esperanças e o ânimo da multidão que Martin esqueceu a febre que o abatia, mergulhou em seu poço particular em busca de força espiritual e apresentou a sua última profecia.

Será que ele sabia? Ele sempre soube que haveria um último discurso.

Será que estava com medo? De jeito nenhum!

O dia seguinte foi um dos mais felizes de sua vida. Rodeado pelo seu irmão, por assessores e amigos íntimos do movimento, riu e brincou todo o dia até que, às seis horas, chegou a hora de ir a um jantar.

Enquanto esperava que Ralph se arrumasse, na sacada do hotel, e decidia se levaria ou não o seu casaco, ouviu-se um tiro.

Sua morte foi instantânea, pois a bala atingiu-lhe a espinha dorsal logo abaixo do queixo.

Só então o seu espírito começou a pairar acima dos oceanos e no interior do coração dos homens, em busca da liberdade para todos.

Eles mataram um sonhador de 39 anos, mas o sonho viverá por mais um milênio, quando homens e mulheres ainda aprenderão a resolver os seus problemas com a força da verdade, o poder do amor e a fé no Espírito que nos guiou a uma nova Terra Prometida, “onde o ímpio se afastará do mal e o fatigado repousará”.

***

Muito obrigado, meus amigos. Enquanto ouvia a eloqüente e generosa introdução de Ralph Abernathy e pensava em mim mesmo, fiquei imaginando de quem ele falava. É sempre bom ter o seu mais íntimo amigo e colaborador para falar algo de bom a seu respeito. E Ralph é o melhor amigo que tenho no mundo.

Estou encantado de vê-los todos aqui nesta noite, apesar do alerta de tempestade. Isso revela a sua determinação para prosseguir, sob quaisquer circunstâncias. Algo está acontecendo em Memphis, algo está acontecendo no mundo. Sabem de uma coisa? Se eu estivesse presente no princípio do mundo e pudesse ter uma visão panorâmica de todos os tempos até os nossos dias, e o Todo-Poderoso me perguntasse: “Martin Luther King, em que época você gostaria de viver?”, eu faria mentalmente uma viagem ao Egito, e talvez prosseguisse pelo mar Vermelho e pelo deserto em direção à Terra Prometida. E, apesar de sua magnitude, eu não ficaria ali.

Eu seguiria até a Grécia e dirigiria o meu pensamento ao monte Olimpo. Encontraria Platão, Aristóteles, Sócrates, Eurípides e Aristófanes reunidos em torno do Partenon, a discutir os grandes e eternos temas da realidade. Mas eu não ficaria ali.

Eu seguiria adiante, até o apogeu do Império Romano e veria as conquistas de tantos imperadores e líderes. Mas eu não ficaria ali.

Eu chegaria aos dias da Renascença e traçaria um rápido panorama de tudo o que ela fez pela vida cultural e artística do homem. Mas não ficaria ali (Sim).

Eu seguiria até a época em que viveu o homem em cuja homenagem me deram este nome e veria Martin Lutero fixar as suas 95 teses na porta da igreja em Wittenberg. Mas eu não ficaria ali.

Eu seguiria até o ano de 1863 e assistiria a um vacilante presidente de nome Abraham Lincoln finalmente chegar à conclusão de que tinha de assinar a Proclamação da Emancipação. Mas eu não ficaria ali.

Eu iria ainda mais longe, ao começo dos anos 1930, e veria um homem50 combater a falência de sua nação. E ouviria um eloqüente clamor de que “nada há a temer, senão o próprio medo”. Mas eu não ficaria ali.

Por estranho que pareça, eu me voltaria ao Todo-Poderoso e diria: “Se o Senhor me permitir viver apenas alguns poucos anos na segunda metade do século XX, ficarei feliz”.

Que estranho pedido a se fazer, afinal o mundo está uma grande bagunça. A nação está doente, há problemas e confusão por toda parte. Que estranho pedido. Mas de algum modo sei que somente quando está suficientemente escuro podem-se ver as estrelas. E vejo Deus agindo neste momento do século XX de tal forma que os homens reagem de um modo estranho – algo está acontecendo. As massas estão se levantando. E onde quer que se reúnam hoje, em Johannesburgo, África do Sul; Nairóbi, Quênia; Acra, Gana; Nova York; Atlanta, Geórgia; Jackson, Mississippi; ou Memphis, Tennessee – o clamor é sempre o mesmo: “Queremos ser livres”.

Mas tenho outra razão para ficar feliz por viver nesta época. Forçaram-nos a tal ponto que, hoje, temos de enfrentar os mesmos problemas que os homens enfrentaram ao longo de toda a história. Mas as circunstâncias não os forçavam a isso como hoje nos forçam, pois desse enfrentamento depende nossa sobrevivência. A humanidade, há muitos anos, tem falado de guerra e de paz. Só que agora não podemos simplesmente falar. Não é mais uma escolha entre violência e não-violência, mas entre não-violência e inexistência. Eis onde nos encontramos hoje.

E, no que diz respeito à revolução dos direitos humanos, se algo não for feito com urgência para tirar os povos de cor de todo o mundo de seus longos anos de pobreza, longos anos de dor e negligência, todo o mundo estará condenado. Por isso, estou muito feliz que Deus tenha permitido que eu viva nesta época, para testemunhar esses acontecimentos. Estou feliz que Ele tenha me permitido estar em Memphis.

Lembro-me, lembro-me de quando os negros apenas vagavam por aí, como Ralph costuma dizer, arrumando sarna para se coçar e motivos para rir à-toa. Mas esse dia chegou ao fim. Agora, o negócio é sério, e estamos determinados a conquistar o lugar a que temos direito no mundo de Deus. E tudo está relacionado a isso. Não nos engajamos em nenhum protesto negativo nem nos envolvemos em discussões negativas. Dizemos que estamos determinados a ser homens. Estamos determinados a ser um povo. Dizemos, dizemos que somos filhos de Deus e que, se somos filhos de Deus, não precisamos viver como nos forçam a viver.

Mas o que tudo isso quer dizer neste grande período da história? Diz-nos que precisamos permanecer unidos. Precisamos permanecer unidos e manter a unidade. Vocês sabem, sempre que o faraó desejava prolongar o período de escravidão no Egito, ele usava a sua fórmula favorita. Qual era? Ele mantinha os escravos em luta entre si. Mas sempre que os escravos se uniam, algo acontecia na corte do faraó e ele não podia manter os escravos no cativeiro. A união dos escravos foi o primeiro passo para a saída do cativeiro. Hoje, fiquemos unidos.

Em segundo lugar, as questões devem ser mantidas em seus devidos lugares, e a questão agora é a injustiça. A questão é a recusa de Memphis em ser uma cidade justa e honesta ao lidar com os servidores da limpeza pública. Agora, fiquemos atentos. Sempre há o problema da violência. Vocês sabem o que aconteceu outro dia, e a imprensa noticiou apenas o quebra-quebra. Li os artigos, que praticamente não mencionaram o fato de que 1.300 trabalhadores da limpeza pública estão em greve, que Memphis não está sendo justa com eles e que o prefeito Loeb precisa urgentemente de um médico. Eles nem sequer mencionaram isso.

Agora marcharemos novamente e devemos marchar novamente a fim de pôr essa questão em seu devido lugar. Faremos com que todos vejam que há aqui 1.300 filhos de Deus que sofrem, atravessando noites escuras e sombrias, pensando como tudo isso vai acabar. Eis a questão. E precisamos dizer à nação: sabemos como isso vai terminar. Pois, quando as pessoas desejam se sacrificar por aquilo que é justo, elas só se contentarão com a vitória.

Não permitiremos que nenhum cassetete nos impeça. Em nosso movimento de não-violência, somos mestres em desarmar forças policiais; já os vi freqüentemente sem ação. Lembro de Birmingham, Alabama, quando estávamos naquela luta fabulosa e saíamos às centenas da igreja batista da rua 16, dia após dia. E Bull Connor51 soltava sobre nós os seus cachorros, que não se aproximavam. Seguíamos cantando diante dos cachorros: “Ninguém me fará recuar”. Bull Connor dizia então: “Usem os jatos d’água”. E, como lhes disse outra noite, Bull Connor não conhecia história. Ele conhecia uma física que de algum modo não se harmonizava com a metafísica que conhecíamos. Pois havia um fogo que nenhuma água poderia apagar. E parávamos diante dos jatos poderosos, pois conhecíamos a água. Se fôssemos batistas, diríamos que fomos imersos. Se fôssemos metodistas, diríamos que fomos aspergidos – mas conhecíamos a água. Ela não nos deteria.

Seguíamos diante dos cachorros e diante dos jatos d’água, seguíamos cantando “Repousa sobre mim a liberdade”. E então nos jogavam em camburões e às vezes nos amontoavam como sardinhas na lata. Jogavam-nos ali dentro, e o velho Bull dizia: “Levem todos daqui”, e eles levavam; e seguíamos no camburão cantando “Nós triunfaremos”. De vez em quando, éramos presos e víamos os carcereiros olhando pelas janelas e se comovendo com nossas preces, se comovendo com as nossas palavras e as nossas canções. E havia ali um poder que Bull Connor não podia liquidar; e, assim, terminamos por transformar o “touro”52 num novilho e vencemos nossa luta em Birmingham.

Agora, do mesmo modo, devemos seguir para Memphis. Clamo pela sua presença ao nosso lado na segunda-feira. Agora no que diz respeito aos mandados: há um circulando e iremos ao tribunal amanhã de manhã, para lutar contra essa decisão injusta e inconstitucional. Tudo o que pedimos à América é: “Seja fiel ao que você colocou no papel”. Se eu vivesse na China ou mesmo na Rússia, ou em qualquer país totalitário, talvez pudesse entender algumas dessas imposições ilegais. Talvez eu pudesse entender a recusa a certos privilégios básicos da Primeira Emenda, uma vez que lá eles não se comprometeram com isso. Mas, em algum lugar, li sobre a liberdade de reunião e associação. Em algum lugar, li sobre a liberdade de expressão. Em algum lugar, li sobre a liberdade de imprensa. Em algum lugar (Sim), li que a grandeza da América é o direito de protestar por direitos. E, como disse há pouco, nenhum cachorro ou jato d’água nos fará recuar, nenhuma lei nos fará recuar. Nós prosseguiremos e precisamos de todos vocês.

E vocês sabem como é bonito ver todos esses ministros do Evangelho. É um quadro maravilhoso. Quem mais é capaz de articular todos os anseios e as aspirações do povo senão um pastor? De algum modo, o pastor deve guardar um fogo em seus ossos e, sempre que a injustiça se revelar, ele deve se manifestar. Tal qual Amós, o pastor deve dizer: “Quando Deus fala, quem não profetizará?”. E, novamente como Amós, o pastor deve dizer: “Que a justiça corra como as águas, e seja a virtude uma corrente poderosa”. Como Jesus, o pastor deve dizer: “O espírito do Senhor repousa sobre mim, pois Ele me enviou, Ele me enviou para levar a Boa Nova aos humildes”.

E desejo louvar os pregadores sob a liderança destes nobres homens: James Lawson, que participa desta batalha há tantos anos; ele foi preso pela sua luta, ele foi expulso da Universidade Vanderbilt pela sua luta, mas ele não desiste de lutar pelos direitos de seu povo. Reverendo Ralph Jackson, Billy Kiles; eu poderia prosseguir com esta lista, porém o nosso tempo é curto. Mas desejo agradecer a todos. E desejo que vocês também agradeçam, porque muito freqüentemente os pastores não se preocupam com mais nada a não ser consigo mesmos. E fico contente em ver um ministro valoroso. É justo falar sobre longos mantos brancos em algum lugar, com todo o seu simbolismo; mas, em última instância, as pessoas daqui querem alguns ternos, vestidos e sapatos. Tudo bem se falarmos sobre ruas cobertas de leite e mel, mas Deus nos ordenou para nos preocuparmos com os miseráveis e seus filhos, que não podem comer três refeições por dia. Tudo bem se falarmos sobre a nova Jerusalém, mas um dia os pregadores de Deus terão de falar sobre a nova York, sobre a nova Atlanta, sobre a nova Filadélfia, sobre a nova Los Angeles, sobre a nova Memphis, no Tennessee. Eis o que precisamos fazer.

Há algo mais que precisamos fazer: sempre ancorar a nossa ação exterior no poder da retração econômica. Somos um povo pobre; individualmente, somos pobres quando nos comparamos com a sociedade branca da América. Somos pobres. Mas nunca se esqueçam que coletivamente, ou seja, todos nós juntos, coletivamente somos mais ricos que todas as nações do mundo, com a exceção de nove. Vocês já pensaram nisso? Fora os Estados Unidos, a União Soviética, a Grã-Bretanha, a Alemanha Ocidental, a França, e poderia mencionar alguns outros, o negro, coletivamente, é mais rico que a maioria das nações do mundo. Temos uma renda anual superior a 30 bilhões de dólares, que é maior do que toda a exportação dos Estados Unidos e maior do que o orçamento anual do Canadá. Vocês sabiam disso? Esse é o poder que temos, se soubermos utilizá-lo (Sim).

Não precisamos discutir com ninguém. Não precisamos praguejar e sair por aí agredindo as pessoas com as nossas palavras. Não precisamos de pedras nem garrafas, não precisamos de coquetéis-molotov (Sim). Precisamos simplesmente circular por essas lojas e pelas grandes indústrias de nosso país e dizer: “Deus nos enviou aqui para lhes dizer que vocês não tratam bem os Seus filhos. E viemos aqui lhes pedir que o primeiro item de sua agenda seja o tratamento justo dos filhos de Deus. Mas, se vocês não estiverem preparados para isso, temos uma agenda a seguir. E nossa agenda exige que retiremos o apoio econômico que lhes damos”.

E assim, como conseqüência, pedimos-lhes nesta noite que saiam e digam a seus vizinhos para não comprar Coca-Cola em Memphis. Passem por suas casas e digam para não comprar leite Sealtest. Digam-lhes para não comprar – como é mesmo o nome do pão? – Wonder Bread. E como é o nome daquela outra fábrica de pão, Jesse? Digam-lhes para não comprar o pão Hart. Como Jesse Jackson disse, até agora, apenas os lixeiros sentiram a dor; agora de certo modo devemos retribuir essa dor. Escolhemos essas empresas porque elas não têm sido justas em suas políticas de contratação e as escolhemos porque elas podem iniciar o processo de apoio às reivindicações e aos direitos desses trabalhadores em greve. E podem ir ao centro da cidade dizer ao prefeito Loeb para fazer o que é certo.

Mas não é só isso. Precisamos ir além e fortalecer as instituições negras. Clamo a vocês que saquem o seu dinheiro dos bancos do centro da cidade e o depositem no Tri-State Bank. Desejamos um movimento “bankin”53 em Memphis. Por isso, passem pelas instituições financeiras. Não lhes peço nada que nós da SCLC já não façamos. O juiz Hooks e outros lhes dirão que temos uma conta aqui numa instituição financeira em nome da Conferência da Liderança Cristã do Sul. Apenas lhes pedimos que façam o mesmo. Depositem o seu dinheiro aqui. Vocês dispõem de seis ou sete companhias de seguro negras em Memphis. Queremos um “insurancein”.54 Eis algumas medidas práticas que podemos tomar. Podemos começar um processo de construção de uma grande base econômica e, ao mesmo tempo, colocar o dedo na verdadeira ferida. Peço-lhes que trilhem esse caminho.

Permitam-me dizer, agora que me aproximo da conclusão, que devemos lutar até o fim. Nada poderia ser mais trágico do que pararmos a esta altura, em Memphis. Precisamos seguir até o fim. E, durante a nossa marcha, vocês precisam estar lá. Se necessário, faltem ao trabalho; se necessário, faltem à escola; mas estejam lá. Preocupem-se com o seu irmão. Vocês podem não estar em greve (Sim), mas venceremos todos juntos ou juntos seremos todos derrotados. Precisamos desenvolver um tipo perigoso de altruísmo.

Um dia um homem veio a Jesus, desejoso de questioná-lo sobre alguns temas vitais. Na verdade, ele queria enganar Jesus, mostrar que conhecia um pouco mais que Jesus e, assim, tirá-lo do páreo. O questionamento poderia facilmente descambar para um debate filosófico-teológico, mas Jesus logo o tirou do plano abstrato e colocou-o numa perigosa curva entre Jerusalém e Jericó. E falou sobre um certo homem que caiu nas mãos de ladrões. Vocês recordam que um levita55 e um sacerdote passaram ao largo, mas não pararam para ajudá-lo. E finalmente um homem de outra raça apareceu. Desmontou de seu animal, decidido a não ser compassivo por procuração. Ajoelhou-se ao seu lado e, prestando-lhe os primeiros socorros, assistiu o necessitado. Jesus finalizou dizendo: esse foi um homem digno, pois teve a capacidade de projetar o seu “eu” no “outro” e de se preocupar com o seu irmão.

Vocês sabem como, em grande medida, usamos a nossa imaginação para tentar determinar por que o sacerdote e o levita não pararam. Às vezes dizemos que eles estavam ocupados demais com compromissos no templo – um encontro eclesiástico – e tinham que ir a Jerusalém a fim de não se atrasarem para o encontro. Outras vezes especulamos que havia uma lei religiosa que determinava que quem estivesse envolvido em cerimônias religiosas não deveria tocar o corpo de um homem 24 horas antes da cerimônia. E de vez em quando começamos a imaginar se talvez eles não seguissem a Jerusalém, ou a Jericó, a fim de organizar uma Associação para o Progresso da Estrada de Jericó. É uma possibilidade. Talvez acreditassem ser preferível atacar o problema pela raiz a se deter num esforço individual.

Mas agora lhes contarei o que diz a minha imaginação. É possível que esses homens tivessem medo. Vejam, a estrada de Jericó é uma estrada perigosa. Lembro-me bem da primeira vez em que minha esposa e eu estivemos em Jerusalém. Alugamos um carro e seguimos de Jerusalém a Jericó. E assim que tomamos a estrada, eu disse para minha esposa: “Entendo por que Jesus usou este cenário em sua parábola.” É uma estrada sinuosa e tortuosa. É de fato muito apropriada para uma emboscada. Saise de Jerusalém, a cerca de 400 metros acima do nível do mar. E ao chegar a Jericó, quinze ou vinte minutos depois, está-se a 600 metros abaixo do nível do mar. É uma estrada perigosa. No tempo de Jesus era conhecida como a “passagem sangrenta”. E vocês sabem, é possível que o sacerdote e o levita tenham visto o homem caído e pensado se os ladrões ainda não estariam por perto. Ou é possível que tenham pensado que o homem caído estivesse apenas fingindo e agia como se tivesse sido roubado e ferido, a fim de atraí-los para ali e rapidamente dominá-los. Assim a primeira pergunta que o levita se fez foi: “Se eu parar para ajudar esse homem, o que me acontecerá?”.

Mas o Bom Samaritano apareceu e ele inverteu a pergunta: “Se eu não parar para ajudar esse homem, o que acontecerá a ele?” Esta é a pergunta que lhes faço esta noite. Não se perguntem: “Se eu parar para ajudar os trabalhadores da limpeza pública, o que acontecerá com o meu emprego?” Não se perguntem: “Se eu parar para ajudar os trabalhadores da limpeza pública, o que acontecerá com as horas de todas as manhãs e de todas as semanas que costumo passar em meu escritório no meu ofício de pastor?”. A pergunta não é: “Se eu parar para ajudar esse pobre homem, o que me acontecerá?” A verdadeira pergunta é: “Se eu não parar para ajudar os lixeiros, o que acontecerá a eles?”.

Levantemo-nos nesta noite com presteza. Fiquemos de pé com determinação. E sigamos nestes dias poderosos, nestes dias desafiadores, a fim de transformar a América naquilo que tem de ser. Temos a oportunidade de tornar a América um país melhor.

E agradeço a Deus, mais uma vez, por me permitir estar aqui com vocês. Vocês sabem que há alguns anos eu estava na cidade de Nova York, autografando o primeiro livro que escrevi. E, enquanto autografava, apareceu uma mulher negra com problemas mentais. A única pergunta que ela me fez foi: “O senhor é Martin Luther King?” Enquanto escrevia, de cabeça baixa, eu disse que sim.

No minuto seguinte, senti algo atingir o meu peito. Antes que eu pudesse perceber, havia sido esfaqueado por essa mulher desequilibrada. Fui levado às pressas para o Hospital Harlem. Era uma escura tarde de sábado. A lâmina penetrara fundo, e a radiografia revelara que a sua extremidade quase tocara a aorta, a artéria principal. Se a lâmina a perfurasse, eu me afogaria em meu próprio sangue; seria o meu fim. Na manhã seguinte, deu no New York Times que, se eu tivesse espirrado, teria morrido.

Bom, cerca de quatro dias depois, permitiram-me, depois da operação, depois que meu peito fora aberto e a lâmina fora retirada, circular pelo hospital em uma cadeira de rodas. Permitiram-me ler um pouco da correspondência enviada para mim. De todos os estados e de todo o mundo chegavam cartas gentis. Li algumas, mas uma jamais esquecerei. Recebi uma do presidente e do vice-presidente, mas esqueci o que esses telegramas diziam. Recebi uma visita e uma carta do governador de Nova York, mas também esqueci o que dizia.

Mas houve uma carta, enviada por uma menina, uma menina de 10 anos que estudava em White Plains High School. Li essa carta e jamais a esquecerei. Ela simplesmente dizia: “Querido dr. King: sou aluna da White Plains High School. Embora não devesse importar, queria mencionar que sou uma menina branca. Li no jornal sobre o seu infortúnio e o seu sofrimento. E li que, se o senhor tivesse espirrado, teria morrido. Escrevo simplesmente para lhe dizer que estou muito feliz que o senhor não tenha espirrado”.

E quero dizer nesta noite, quero dizer que estou feliz que eu não tenha espirrado. Pois, se eu tivesse espirrado, não estaria aqui em 1960, quando os estudantes de todo o Sul começaram os sit-ins56 nos balcões das lanchonetes. E sei que quando eles se sentavam, eles na realidade se punham de pé, em nome do que há de melhor no sonho americano, e levavam toda a nação de volta aos grandes poços da democracia que foram escavados profundamente pelos Pais Fundadores na Declaração da Independência e na Constituição.

Se eu tivesse espirrado, não estaria aqui em 1961, quando decidimos viajar pela liberdade e pôr fim à segregação nos transportes interestaduais.

Se eu tivesse espirrado, não estaria aqui em 1962, quando os negros de Albany, Geórgia, decidiram levantar a cabeça. E, sempre que homens e mulheres ficam de pé, eles vão a algum lugar, pois ninguém poderá montar-lhes as costas a menos que se curvem.

Se eu tivesse espirrado, não estaria aqui em 1963, quando a população negra de Birmingham, Alabama, despertou a consciência desta nação e trouxe à luz a Lei dos Direitos Civis.

Se eu tivesse espirrado, não teria tido a chance de, em agosto do ano seguinte, tentar contar à América um sonho que eu tivera.

Se eu tivesse espirrado, não teria testemunhado o grandioso movimento de Selma, Alabama.

Se eu tivesse espirrado, não teria vindo a Memphis para ver a comunidade se mobilizar em nome de seus irmãos e irmãs que sofrem. Estou muito feliz de não ter espirrado.

E eles me diziam: agora não tem importância. Realmente agora não tem importância. Deixei Atlanta esta manhã, e, quando embarcamos no avião, o piloto disse no sistema de som: “Lamentamos o atraso, mas temos o senhor Martin Luther King a bordo. E para ter certeza de que todas as malas fossem revistadas e para ter certeza de que nada sairia errado, checamos tudo com cuidado. E o avião esteve sob proteção policial toda a noite.”

Então cheguei a Memphis e começaram a me falar das ameaças ou comentar as ameaças que vieram à tona. O que poderiam me fazer alguns de nossos doentes irmãos brancos?

Bem, não sei o que acontecerá agora. Dias difíceis virão (Amém). Mas não me importo. Pois eu estive no topo da montanha (Sim). E não me importo. Como qualquer pessoa, gostaria de viver uma vida longa. A longevidade tem o seu lugar. Mas não me preocupo com isso agora. Apenas desejo obedecer aos desígnios de Deus (Sim). E Ele me levou ao topo da montanha, olhei ao redor e contemplei a Terra Prometida. Posso não alcançá-la, mas quero que saibam, que nós, como povo, chegaremos à Terra Prometida. Estou tão feliz; não me preocupo com nada; não temo homem algum. Meus olhos viram a glória da presença do Senhor.

Proferido no templo Bispo Charles Mason, em Memphis,Tennessee, em 3 de abril de 1968

***

NOTAS

48. Ralph Abernathy: ver nota 3.
49. Bernard Lee: veterano do movimento por direitos civis e companheiro constante de Martin Luther King.
50. Franklin Delano Roosevelt, presidente dos EUA entre 1933 e 1945.
51. Bull Connor: ver nota 20.
52. No original: “Bull”.
53. Em relação ao movimento sit-in nos ônibus. Ver nota 17.
54. Ver nota anterior.
55. Levita: membro da tribo hebraica sacerdotal de Levi; dedicado ao serviço do templo, com atribuições acessórias ao culto, menos importantes do que as que cabiam aos sacerdotes levíticos da família de Aarão (os únicos a ter acesso ao altar).
56. Do original sit-in movement: movimento originado por quatro jovens em Greensboro, na Carolina do Norte, que se sentaram em áreas reservadas a brancos em um restaurante segregacionista e se recusaram a levantar enquanto não fossem servidos.

REFERÊNCIAS 

Eu estive no topo da montanha © 2000, herdeiros do espólio de Martin Luther King, Jr.
Apresentação © 2000, Andrew Young.

CARSON, C & SHEPARD, K. Uma apelo à consciência: os melhores discursos de Martin Luther King. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

***

Andrew Young trabalhou ao lado de Luther King na Conferência da Liderança Cristã do Sul (Southern Christian Leadership Conference – SCLC, na sigla em inglês) em esforços tais como a educação para a cidadania e o registro eleitoral. Eleito para o Congresso Nacional em 1973, Young foi o primeiro deputado negro representante da Geórgia desde o fim da Guerra Civil (1861-65). Após servir como embaixador nas Nações Unidas, foi duas vezes prefeito de Atlanta. Foi agraciado com a Medalha Presidencial da Liberdade, a mais importante comenda que pode ser concedida a um civil nos Estados Unidos. Atualmente preside o Good Works International, LLC.

 

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