“‘Me chame pelo seu nome’ – onde se pode chorar”, por Pablo Rodrigues

Acabo de assistir o filme de Luca Guadagnino, Me chame pelo seu nome (2017). Estrelado por Timothée Chalamet (no papel do adolescente Elio Perlman) e Armie Hammer (no papel do estudante universitário Oliver).

Cheguei ao filme bem depois da efervescência surgida após a premiação do Oscar e do marketing de vendagem do livro. Inicialmente, Cleone, uma amiga, tinha me indicado o filme e dito sobre como algumas famílias se sentiram horrorizadas na sala de cinema por se tratar de um romance entre um adolescente e um homem adulto. Depois, vim a assistir o filme por influência da ativista dos direitos humanos e mulher trans/travesti, Lana de Holanda, (@lanadeholanda), que sobre o filme dizia assim: “Finalmente assisti ‘Me Chame Pelo Seu Nome’, e vou usar uma palavra que nunca usei antes, para definir alguma obra: sublime!”. Decidi então, parar as coisas que estava fazendo e assistir o filme. Gesto muito consciente: se desligar um pouco do celular e se prender em outra tela.

Talvez esse filme toque mais aos gays. Ou talvez, ele toque todos que se importam com o amor entre dois homens ou duas mulheres. Simplesmente, o amor. E é claro, existe uma mensagem para além da primeira crítica ao filme que é a relação de um adolescente e um homem adulto. Ou seja, o argumento que o filme é uma espécie de apologia “cult” a pedofilia. Esse assunto é delicado, mas está no filme. Pode surgir na mente do telespectador ao assistir toda obra. Seja com Oliver, seja na relação paterna quando Mr. Perlman (Michael Stuhlbarg) diz que estará ali para ajudar o filho, ou ainda que o invejava pela relação construída por seu filho único e Oliver. Mas é necessário ir um pouco mais além dessa primeira impressão.

A casa, uma bela casa na Itália, é uma ambiente em que as línguas e a intelectualidade fluem a todo momento. O piano, o violão, o francês, o italiano, o alemão, e o inglês. Elementos culturais que trazem à cena a sustentação da compreensão do porquê os pais nada intervem na relação do orientando e seu filho. Acredito, que há uma pedagogia que os pais assumem no trato do filho permitindo que ele tenha a oportunidade de conhecer seus próprios sentimentos. Uma espécie de mais velho que conduz o mais jovem na vida adulta? (Deve se lembrar que o Mr. Perlman é professor de cultura greco-romana). Tudo ocorre debaixo do olhar do pai (e também da mãe, Annella (Amira Zanganeh)).

Entre as transas com Marzia (Esther Garrael), Elio Perlman, se vê entre expressar sua sexualidade com uma mulher, e o desejo de ser completo com um homem. Ele vai se descobrindo. Se conhecendo. Desejando estar com Oliver mais do que tudo, até dispensar o amor heterossexual de verão. E são dois os momentos iniciais importantes no filme para compreendermos essa relação amorosa. A primeira o olhar entre a camisa aberta na mesa do café, em que Elio observa o peito de Oliver, e nós também, com sua cruz judaica junto ao peito. Ação de Elio para Oliver. E depois, o toque de Oliver no ombro de Elio, no jogo de vôlei. O que saberemos ter sido, bem para o final do filme, que fora um dos sinais de Oliver para Elio sobre seu interesse amoroso.

Entre os inúmeros momentos em quem o francês ou o italiano nos vem em uma das cenas, incompreensíveis para mim como língua estrangeira, mas totalmente compreensíveis numa língua dos afetos, uma cena me comoveu profundamente. A cena em que o pai, Mr. Perlman fala uma das frases de Michel de Montaigne a Étienne de La Boétie:  “Se pressionado a dizer por que eu o amava, sinto que isso não pode ser expresso. Exceto dizendo: porque era ele; porque era eu”. Em francês: “Parce que c’était lui, parce que c’était moi”.

E assim a gente pensa nos muitos amores que tivemos, das dores e alegrias que passamos. Estamos juntos com Elio recebendo o conselho paterno para abraçar a felicidade e a tristeza que o amor pode nos dar. Elio e Oliver unem as duas pontas da vida. O menino que se descobre e o homem adulto, universitário que ainda se apaixona e agora está na condição de educador do amor. E assim não temos um casal, mas a face de uma mesma moeda. Os dois são um, “Parce que c’était lui, parce que c’était moi”.

Como nasce ao amor e como se sobrevive ao seu nascimento, por vezes doloroso e angustiante, porque também é tristeza e alegria? E Elio chora. Ele chora e não é incomodado pela família com a clássica pergunta “Por que está chorando, Elio?”. (Só no início do filme é que a família diz que ele poderia falar o que precisava). Isso também é importante. Elio diz, não dizendo, o que sente, apenas diz para Oliver. (Porque somente o amado é capaz de entender o que o jovem menino sente?)

Diante do mundo amoroso que se despedaça, Elio chora diante da lareira, porque “Amor é um fogo que arde sem se ver; É ferida que dói, e não se sente;/ É um contentamento descontente; É dor que desatina sem doer. (versos atribuídos a Camões). Ou ainda porque Elio sabe sobre o amor, “Que não seja imortal, posto que é chama. Mas que seja infinito enquanto dure”. (Vinicius de Moraes).

Existem muitas cenas importantes ao longo do filme. Como aquela em que o Mr. Pelmann trabalha junto com Oliver os slides e tentam definir conceitualmente as estátuas recém descobertas. Elas servem para levar o desejo ao espectador, é a explicação do professor, muito mais do que servirem a homenagear alguém. Elas homenageiam o desejo, Elio e Oliver. A cena em que Elio chora no peito de Oliver por se achar um doente. Logo após, que se masturbou com o damasco. E ainda, a trilha sonora do filme, que é incrível. A explicação do nome do filme: “Me chame pelo seu nome” é outra cena que guardamos carinhosamente na memória.

Você também pode ler outras resenhas do filme: “Me chame pelo seu nome“, “‘Me Chame Pelo Seu Nome’, o filme para o qual o Oscar não está preparado” e “As sutilezas de “Me chame pelo seu nome”.

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‘ME CHAME PELO SEU NOME’
Diretor: Luca Guadagnino.
Roteiro: James Ivory, baseado no romance de André Aciman.
Atores: Armie Hammer, Timothée Chalamet, Michael Stuhlbarg, entre outros.
Gênero: Drama, Romance.
Duração: 2h12 minutos.
Estreia no Brasil: 18 de Janeiro de 2018.

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